sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
UM ELOGIO A CREONTE
(Phillipe Van Haute, in: "Antígona: heroína da psicanálise?")
"Que as posições de Creonte e de Antígona sejam mutuamente interconectadas, isto pode ser revelado pelo fato de Creonte, no curso da tragédia, repetidamente apontar para sua impossibilidade em obedecer Antígona porque ela é uma mulher. Parece que Creonte não cederá sob nenhuma circunstância a Antígona por medo de se tornar igual a ela. Em outras palavras, ele teme a perda de sua identidade. “Agora, entretanto, homem não serei eu, homem será ela, / se permanecer impune tamanho atrevimento”. Creonte não pode ceder a Antígona sem perder sua masculinidade.
(...)
Creonte está, sem saber, enfeitiçado por Antígona, ele está fascinado par aquela com quem ele se identifica. Essa identificação (imaginária) lança uma luz esclarecedora sobre a insegurança de Creonte com respeito à sua identidade, assim como sobre o frenesi com o qual ele se segura rapidamente à lei.
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A intervenção de Tirésias lhe permite resolver essa confusão (...)
Creonte reconhece suas faltas e tenta retificá-las. A ansiedade de tornar-se uma mulher não mais o impede de revisar sua posição. Entretanto, ele atinge tal sagacidade muito tarde: Antígona está morta e seu filho Hemon se suicidou à visão do corpo morto dela. Eurídice não pode aceitar a perda de seu filho e também comete suicídio. Nesse momento, Creonte torna-se insano com pesar e somente deseja a morte. Esse desdobramento dramático de eventos não pode nos deixar perder de vista o seguinte: Creonte reconhece sua culpa e adequa sua história. Ele é, e ninguém mais, responsável pelo que aconteceu.
Com aceitação de sua própria responsabilidade pelo que ocorreu, Creonte recebe uma dimensão humana que faltava a Antígona. Creonte se dá conta de como o que aconteceu aconteceu, e aceita sua própria parte no infortúnio que acometeu a si e à sua família. Essa é uma pré-condição necessária para que uma história se torne possível como algo diferente de uma mera realização de um destino cego.
(...)
Antígona. É verdade que, em certo aspecto, a intervenção de Tirésias, assim como a “conversão” de Creonte, veio muito tarde. Mas isso não impede que Creonte seja capaz, na base dessa intervenção, de assumir uma nova posição subjetiva, na base da qual uma nova história talvez possa se tornar possível. Não se pode entender verdadeiramente como essa problemática pode ser deixada fora de consideração se ao mesmo tempo designamos um valor paradigmático à Antígona de Sófocles na determinação do telos da análise."
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