segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pais e filhos 2

Vai se querer suspender, para a criança, todas as misérias que a educação lhe faz, vai se querer que ela tenha a melhor vida, a mais doce, que ela cumpra os sonhos de desejo, que ela case com o príncipe, que ele se torne o herói etc. Tudo isso é muito bonito, só que esse amor dos pais preside, vemos isso na experiência, a atitudes muito opostas neles. Querer proteger a criança da infelicidade e, depois, também, impô-la. Como explicar? É muito simples: é que toda criança - o bebê, o chorão internacional - que não fala, evidentemente, se presta a ser o objeto de projeções positivas do narcisismo dos pais. Em seguida, porém, quando ela cresce (porque é preciso que ela - a infeliz - cresça, é preciso que ela entre necessariamente no discurso), os pais são chamados para a tarefa de fazê-lo entrar nas prescrições do discurso; então, o que se faz pesar, o que o Outro faz pesar sobre seus ombros, são os ideais dos pais. É aí que o amor se torna feroz. Esse amor tão comovedor dos pais, e tão infantil, é ao mesmo tempo o próprio princípio da alienação da criança, da exigência alienante a respeito da criança.

Colette Soler - Declinações da angústia

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