sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Teoria x Prática psicanalítica

Por MD Magno

Já vai muito longe o tempo cultural, digamos assim, em que se poderia dar ao luxo de fazer essa separação entre a teoria e a prática - "a teoria na prática é outra coisa", essas bobagens tantas que a gente escuta - porque a teoria É uma prática. Fico frequentemente perplexo ao escutar certas colocações de pessoas que estão tentando se aprofundar na teoria e, quando se referem à chamada prática, supõem que lá é um lugar onde nada disso funciona, onde nada disso é trazido, lá acontecem "outras" coisas... E vemos, um pouco deceptivamente, pessoas estarem à busca de aulas e textos que lhes digam o que devem fazer quando estão lá com o analisando. Este é o tipo de demanda antipsicanalítica por excelência. (...) Ficamos assim, deslumbrados, quando alguém vem trazer o que "interessa". O que interessa, no caso, seria, para quem está pressionado pelo analisando - e mais assustado, às vezes, do que ele - a lição, a receita do que fazer, ou, pelo menos, uma descrição de um acontecimento, exposto teoricamente, que viesse oferecer um paradigma de comportamento. Isto é da mais alta periculosidade. (...) Sempre chamo atenção para o fato, e vou repetir isso muitas vezes, de que é preciso não ficar à busca de casinhos. Isto é típico da psicologia, aonde esse imaginário bem funciona, porque não há outra coisa para se fazer com a psicologia. Essa sede de ouvir casos clínicos, e de tratar de casos clínicos, me faz parecer, até prova em contrário, que o sujeito está em busca de receitas. E é exatamente em busca do quê o sujeito não deve estar, para que cada encontro com o analisando seja algo radicalmente novo. Considero isto uma atitude deletéria, esse amor pela casuística, esse amor por trabalhar "a clínica". É preciso manipular as articulações de maneira a poder produzir a teoria de cada caso.

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