sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Gozo Perdido

Uma observação do cotidiano, que me foi comunicada há muitos anos atrás, me parece ser a mais excelente exemplificação do que significa esta perda de gozo de que fala Lacan. Um menino de seis anos de idade, ao observar seu irmãozinho de leite mamando no peito de sua mãe, diz a ela: “Mamãe, eu também quero mamar!”. A mãe lhe responde: “Mas você já mamou!”. E ele exclama: “Mas eu não sabia!”. É dessa disjunção radical entre saber e gozo que fala Lacan. O menino, ao observar o irmão, quer voltar ao gozo do seio materno perdido, mas sabendo disso! Acontece que esse retorno não é possível: aonde há linguagem, não há gozo, e aonde há gozo, não há linguagem. O sujeito pode, portanto, afirmar que ele vai gozar no futuro, ou, então, que ele gozou no passado, mas jamais que ele o faz no presente. No aparelho psíquico, no mundo da linguagem, o gozo é sempre aspiração ou lembrança.

Por Marco Antonio Coutinho Jorge, Fundamentos da Psicanálise 2

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