Uma observação do cotidiano, que me foi
comunicada há muitos anos atrás, me parece ser a mais excelente
exemplificação do que significa esta perda de gozo de que fala Lacan. Um
menino de seis anos de idade, ao observar seu irmãozinho de leite
mamando no peito de sua mãe, diz a ela: “Mamãe, eu também quero
mamar!”. A mãe lhe responde: “Mas você já mamou!”. E ele exclama: “Mas
eu não sabia!”. É dessa disjunção radical entre saber e gozo que fala
Lacan. O menino, ao observar o irmão, quer voltar ao gozo do seio
materno perdido, mas sabendo disso! Acontece que esse retorno não é
possível: aonde há linguagem, não há gozo, e aonde há gozo, não há
linguagem. O sujeito pode, portanto, afirmar que ele vai gozar no
futuro, ou, então, que ele gozou no passado, mas jamais que ele o faz no
presente. No aparelho psíquico, no mundo da linguagem, o gozo é sempre
aspiração ou lembrança.
Por Marco Antonio Coutinho Jorge, Fundamentos da Psicanálise 2
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