sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre o fim de análise


Por Jacques-Alain Miller em Lacan Elucidado

Talvez o tratamento se conclua somente quando o sujeito sai da demanda e não espera mais nada da análise, não pede mais nada ao analista. Quando falamos da conclusão do tratamento, trata-se de algo muito misterioso: da desaparição profunda, radical, autêntica e inconsciente da demanda. Trata-se da desaparição do próprio lugar da demanda, da possibilidade de esperar algo da demanda feita a um Outro. Trata-se do fenômeno misterioso da desaparição do Outro como aquele a quem dirigir uma demanda.
O pedir, a demanda, é fundamental e, com a desaparição do Outro a quem pedir, se desvanece a esperança de poder encontrar alguém que dê o que falta a quem pede. Há uma falta que ninguém pode completar, um defeito sem remédio e, neste sentido, o desvanecimento da demanda é a mesma coisa que consentir e assumir a castração, que, de certo modo, significa não restar a quem dirigir a demanda.
Não se trata simplesmente de desistir de ambições loucas, de adquirir modéstia, de renunciar. Peguntaram-me se é mais fácil ou mais difícil quando o Outro não existe. Poderia responder que é mais fácil, pois quando não se pode pedir ao Outro, que não mais existe; quando não se pode pedir nada a ninguém, o remédio é apoiar-se em si mesmo. Mas, por outro lado, é muito mais difícil viver no desvanecimento do Outro, pois implica em viver sem identificações, em viver sem o suporte das identificações através das quais o sujeito, sem o saber, se inscrevia no lugar do Outro.
Há algo de cínico no fim de análise. Um certo tipo de solidão cínica. Na história do pensamento, são os cínicos, é a ascese cínica que encarna a posição do sujeito se conduzindo como se o outro não existisse e, assim, se permitindo de tudo, sem pudor, porque não está esmagado, limitado pelo olhar do Outro. Digo cinismo porque com ele o sujeito vive no coração de seu ser, como se o Outro não fosse senão semblante.
O analisado, o sujeito no final de sua análise, conhece um estado de entusiasmo à medida que desaparece o Outro ao qual ele dava o poder de esmagá-lo. Mas pela mesma razão o analisando conhece também um afeto depressivo quando descobre a inexistência do Outro e de todas as paixões que giravam ao seu redor. É por essa razão que Lacan situa os afetos possíveis do final de análise entre mania e depressão, de maneira antinômica e cíclica. Os dois afetos produzem-se com o desvanecimento do Outro da demanda.

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