É
porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de
um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas
as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos,
delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os
falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e
monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor
do que a morte: é ela a grande Desconhecida. Aonde pode levar tanto
vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de
morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse
um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível –
se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato
com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um
suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o
Insensato... Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente
seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte – uma
gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma
ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e
nenhum desejo frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda
do Desejo.
Emil Cioran.
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