Aconteceu
assim. Lacan se perguntava o que seria o fim de uma análise, ou seja,
como definir uma análise propriamente terminada. Sua resposta foi a
seguinte: o fim de uma análise (diferentemente de uma interrupção) não é
o esgotamento dos
assuntos, o sumiço dos sintomas, o fim das
queixas ou coisa que o valha. O fim de uma análise propriamente dito
seria uma experiência radical produzida pelo próprio processo analítico.
Pouco importa aqui examinar como Lacan entendia essa experiência e o
processo que a ela levaria. Mas, descrita em termos psicológicos e muito
simples (que ele teria detestado), seria a experiência de que não somos
grande coisa e, em particular, não somos a única coisa que falta para
que o mundo seja perfeito e para que a nossa mãe seja feliz. Isso parece
(e é) uma coisa fácil de saber e mesmo de admitir, mas uma experiência
efetiva dessa superfluidade de nossa existência é uma outra história.
Nesse momento final, o sujeito vivenciaria, logicamente, uma espécie de
desamparo depressivo, mas também uma extrema liberação. Por que
liberação? Pois é, o que mais nos faz sofrer talvez seja justamente a
relevância excessiva que atribuímos à nossa presença no mundo, pois essa
relevância é a pedra de fundação de todas nossas obstinadas repetições,
é graças a ela que insistimos em ser sempre “iguais a nós mesmos”
(sendo que, no caso, essa expressão não tem um sentido positivo).
Há
boas razões para se pensar que, uma vez essa experiência feita, a gente
possa passar a viajar pela vida carregando malas um pouco mais leves.
Ou seja, seríamos capazes de largar os sintomas que nos devastam e que,
obviamente, adoramos a tal ponto que não conseguimos desistir deles. Em
suma; essa experiência conclusiva teria um valor terapêutico.
Contardo Calligaris - Cartas a um jovem terapeuta
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