sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre o suposto fim da psicanálise

Ricardo Goldenberg

"O modo como falha em ser é tudo que tem para justificar uma existência, de qualquer ponto de vista, insensata. Talvez a melhor definição para a famigerada assunção da castração seja esta: abrir mão do defeito como brasão, suportar-se injustificável.
Acaso quando falamos de cura por acréscimo estamos desprezando o sofrimento humano? [...] Já temos ao alcance da mão o que é preciso tomar para dormir. Quem sabe dentro em breve saberemos agir diretamente sobre os centros bioquímicos da dor. E talvez se encontre a molécula da esquizofrenia. O nirvana se aproxima a grandes passadas. Supor que isso tudo será possível a curto prazo me parece muito mais interessante que dizer: não, jamais! Entretanto, uma vez que se encontrem os centros da dor e se saiba operar diretamente sobre eles, a vontade de justificação não desaparecerá. Antes pelo contrário, para o neurótico justificar-se por não sofrer é ainda mais difícil. Ao invés do que se supõe, nada disso anuncia o desaparecimento da psicanálise, dado que a verdadeira questão é se se pode curar ou não a justificação.
"Curar a justificação", uma bom comentário da injunção que Lacan não se importaria de ver qualificada como terrorista, e que colocamos em exergo: "De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis". Refugiar-se no determinismo inconsciente pode ser o último álibi para não ter que responder pela esquisitice e encontrar uma razão de ser. Nenhum determinismo fará dele um inocente, porém. Eis o terrorismo psicanalítico: engajar o sujeito no seu determinismo inconsciente. A neurose é uma escolha ética. Um paciente deve abandonar seu analista convicto disto."

Nenhum comentário:

Postar um comentário