Ricardo Goldenberg
"O modo como falha em ser é tudo que tem para justificar uma
existência, de qualquer ponto de vista, insensata. Talvez a melhor
definição para a famigerada assunção da castração seja esta: abrir mão
do defeito como brasão, suportar-se injustificável.
Acaso quando falamos de cura por acréscimo estamos desprezando o sofrimento humano? [...] Já temos
ao alcance da mão o que é preciso tomar para dormir. Quem sabe dentro
em breve saberemos agir diretamente sobre os centros bioquímicos da dor.
E talvez se encontre a molécula da esquizofrenia. O nirvana se aproxima
a grandes passadas. Supor que isso tudo será possível a curto prazo me
parece muito mais interessante que dizer: não, jamais! Entretanto, uma
vez que se encontrem os centros da dor e se saiba operar diretamente
sobre eles, a vontade de justificação não desaparecerá. Antes pelo
contrário, para o neurótico justificar-se por não sofrer é ainda mais
difícil. Ao invés do que se supõe, nada disso anuncia o desaparecimento
da psicanálise, dado que a verdadeira questão é se se pode curar ou não a
justificação.
"Curar a justificação", uma bom comentário da
injunção que Lacan não se importaria de ver qualificada como terrorista,
e que colocamos em exergo: "De nossa posição de sujeito, somos sempre
responsáveis". Refugiar-se no determinismo inconsciente pode ser o
último álibi para não ter que responder pela esquisitice e encontrar uma
razão de ser. Nenhum determinismo fará dele um inocente, porém. Eis o
terrorismo psicanalítico: engajar o sujeito no seu determinismo
inconsciente. A neurose é uma escolha ética. Um paciente deve abandonar
seu analista convicto disto."
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