sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
As manifestações do não-toda.
Colette Soler, em 'A psicanálise na civilização', analisa trechos da obra de Claudel (1906), Partage de Midi, na qual, segundo Lacan, o autor teria conseguido criar uma verdadeira mulher, Ysé.
"(...) Tudo, tudo e eu!
É portanto verdade, Mésa, que existo só e eis o mundo repudiado, e para o que nosso amor serve aos outros?
E eis o passado e o futuro ao mesmo tempo
Renunciados, não há mais família e filhos e marido e amigos,
E todo universo à nossa volta.
Vazio de nós (...)
Mas isso que desejamos, não é mais criar e sim destruir (...)"
Eis, na verdade, dizemos, o voto demasiado conhecido de ser única - que aliás se distingue da reivindicação de privilégio, que pertence ao registro da justiça distributiva - e a exaltação do amor pela morte. De fato, o tema não é novo; é até clássico. Claudel o eleva apenas à dimensão absoluta não do amor místico, mas antes de uma mística do amor que vem ali onde Deus se retirou. É a tentação de um amor tão total, tão absoluto quanto irrespirável, que varre não somente as misérias do compromisso, mas que esvazia de sua substância os objetos mais caros; que leva à morte toda diferença e que se afirma sob a forma de um aniquilamento de todos os objetos correlatos à função fálica, ou seja, à falta. É precisamente esta face deletéria que Ysé evoca ao falar de sua tentação:
"Compreenda de que raça eu sou! Porque uma coisa é má,
Porque ela é louca, porque ela é ruína e a morte é a minha perdição e a de todos,
Não será uma tentação a qual mal posso apegar-me?"
Mais que o simples apelo ao amor, não será, através dele, o apelo a alguma coisa de mais radical, a tentação aniquilante por excelência?
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