No
dom de amor, alguma coisa é dada por nada, e que só pode ser nada. Em
outras palavras, o que faz o dom é que um sujeito dá alguma coisa de uma
maneira gratuita; na medida em que, por detrás do que ele dá, existe
tudo o que lhe falta, é que o sujeito sacrifica para além daquilo que
tem.
Suponhamos um sujeito provido de todos os bens possíveis, de todas as riquezas, um sujeito que tenha a plenitude
possível de tudo o que se possa ter. Pois bem, um dom vindo dele não
teria de modo algum o valor de um signo de amor. Os crentes imaginam
poder amar Deus porque Deus é considerado detentor de uma plenitude
total, uma totalidade de ser. Mas se este reconhecimento dirigido a um
deus que seria tudo é apenas pensável é porque, no fundo de toda crença,
existe ainda assim esse algo que permanece ali - este ser que se
considera ser pensado como um todo, falta a ele, sem dúvida alguma, o
principal no ser, isto é, a existência. No fundo de toda crença em deus
como perfeita e totalmente munificente, existe a noção de uma coisa
qualquer que lhe falta sempre, e que faz com que se possa ainda assim,
sempre supor que ele não exista. Não há outra razão para se amar a Deus
senão que talvez ele não exista.
Jacques Lacan - Seminário 4
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