sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As Invasões Bárbaras



 “O desdobramento implícito de "O declínio" para "As invasões" é o deslocamento da pulsão sexual para a pulsão de morte, o que se acha primorosamente ilustrado pela trilha sonora de ambos: do Haendel voluptuoso e sensual do primeiro ao minimalismo angustiante e sinistro de Philip Glass do segundo.
(...)
Na busca de dar ao pai o melhor possível para enfrentar a doença terminal, Sébastien revela o poder absoluto do dinheiro que tudo compra (...) O dinheiro surge no filme sem números, mas em maços; não é contado, mas pesado na balança. Ele revela a sua face feroz de gozo absoluto e mostra que não é apenas no Terceiro Mundo (mencionado no filme duas vezes), que, manipulando a corrupção, opera milagres e faz tudo acontecer.
Noutro nível, o da cultura, trata-se de um filme sobre o real do gozo sem limites: o dinheiro, a droga, a queda do simbólico, a falência do amor, o vazio ético e politico. Tudo se passa como se a mudança ocorrida nesses 17 anos evidenciasse primordialmente a falência dos ideais e das fantasias sociais e a emergência daquilo que se esconde por trás de todas elas: a voracidade de um gozo mortífero, do qual a droga é um dos símbolos mais fortes. Em "O declínio", a droga utilizada é a maconha, ao passo que em "As invasões" é a heroína. Cheirada, injetada e fumada, ela opera uma grande invasão no corpo do gozo bárbaro e sem limites, do gozo não refreado pelas construções da cultura.
(...)
Já na casa do pai de Sébastien, Nathalie se detém nas obras da biblioteca dele. Seu olhar se encanta com as palavras nas lombadas e capas dos livros, grandes obras de construção da cultura humana. Nathalie respira fundo. Num impulso, beija rapidamente a boca de Sébastien. Sua cura se anuncia, uma fantasia amorosa se instaura para ela a fim de refrear o gozo mortífero da droga. E a cultura humana, quando ela poderá ter a sua chance de cura? Como ela devera ser amada para que deseje retribuir esse amor? Quando conseguirá refrear minimamente as invasões barbaras? A ostentação de uma enorme potência de gozo através das Torres Gêmeas – que, como dois falos gigantescos, parecem gozar sem parar desprezando a alteridade –, ao suscitar o profundo ódio do Outro, demonstrou não ser a melhor saída."


(Marco A. Coutinho, Fundamentos da Psicanálise, vol.2, p 154-158)

Nenhum comentário:

Postar um comentário