sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
A posição histérica e a posição feminina
Por Colette Soler, em O que Lacan dizia das mulheres
Na relação com o parceiro, o sujeito histérico conduz a uma estratégia de subtração. “Esquiva”, diz Lacan, ali onde Freud já trouxera à luz o duplo movimento de sedução e recusa, a mão que levanta a saia e a outra que a abaixa. A Bela Açougueira o mostra de forma charmosa e inofensiva: não se recusa ao gozo do marido e não sabemos exatamente que gozo extrai disso, mas sabemos que a única coisa que lhe interessa, de fato, é aquilo que não é satisfeito no marido, e, se ela se identifica com a amiga, é para tentar, pelo menos imaginariamente, deixar insatisfeita a satisfação do marido. Mas não há nisso nenhuma maldade: apenas o voto de se fazer ser o que falta ao Outro.
Não se deve concluir que o sujeito histérico seja um sujeito que se recusa a qualquer gozo. Ele é um sujeito que consome a falta, e isso é realmente um gozo, mas não é o gozo vivo. Dito de outra maneira, gozar da falta e gozar da carne são duas coisas muito diferentes. Essa vontade de deixar o gozo insatisfeito é o que define, de maneira precisa, a posição histérica.
A posição-mulher é outra. Lacan a define de maneira oposta. Lacan responde à famosa pergunta de Freud: “Que quer a mulher”. A resposta, em resumo, poderia ser: ela quer gozar. Do sujeito histérico não se poderia dizer que ele quer gozar, nem tampouco o contrário, aliás. Então, que quer ele? Pelo que foi dito antes, depreende-se uma formulação. A histérica, ao deixar insatisfeito o gozo do Outro, quer um mais-ser. Assim, conviria dizer: a mulher quer gozar, a histérica quer ser. E até exige ser, ser alguma coisa para o Outro: não um objeto de gozo, mas o objeto precioso que sustenta o desejo e o amor.
Para a histérica, não se trata apenas de fazer o Outro desejar sexualmente, mas de fazê-lo dizer a causa. Daí a insatisfação que tropeça no impossível de dizer e se alimenta de todos os saberes produzidos. “Dize-me o que visa teu desejo, em mim ou no outro!”. Essa questão, que certamente alimenta o discurso amoroso, também tem uma função de supereu.
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