sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre linguagem, sexualidade e narcisismo dos animais


"Digamos que, no mundo animal, todo o ciclo do comportamento sexual é dominado pelo imaginário. (...) Não está aí outra coisa senão o fenômeno imaginário que eu lhe detalhei no animal. O animal faz coincidir um objeto real com a imagem que está nele. E, bem mais, eu diria, como já está indicado nos textos de Freud, que a coincidência da imagem com um objeto real a reforça, lhe dá corpo, encarnação. Nesse momento, desencadeiam-se comportamentos que guiarão o sujeito para o seu objeto, por intermédio da imagem.
No homem, isso se produz?
No homem, nós o sabemos, as manifestações da função sexual se caracterizam por uma desordem eminente. Não há nada que se adapte. Essa imagem em volta da qual nós, psicanalistas, nos deslocamos, apresenta, quer se trate das neuroses ou das perversões, uma espécie de fragmentação, de explosão, de despedaçamento, de inadaptação, de inadequação.
(...)
Bem, o que é o fim do tratamento? Será análogo ao fim de um processo natural? O amor genital - esse Eldorado prometido aos analistas e que nós prometemos bem imprudentemente aos nossos pacientes -, é ele um processo natural? Não se tratará, ao contrário, apenas de uma série de aproximações culturais que só podem ser realizadas em certos casos? A análise, o seu término, será então dependente de toda espécie de contingência?
Do que é que se trata? - senão de ver qual é a função do outro, do outro humano, na adequação do imaginário e do real. (...)
Vocês podem apreender então que a regulação do imaginário depende de algo que está situado de modo transcendente - o transcendente no caso não sendo aqui nada mais que a ligação simbólica entre os seres humanos.
O que é a ligação simbólica? É, para colocar os pingos nos ii, que socialmente nós nos definimos por intermédio da lei. É da troca dos símbolos que nós situamos uns em relação aos outros nossos diferentes eus.
(...)
Qual é o meu desejo? Qual é minha posição na estruturação imaginária? Esta posição não é concebível a não ser que um guia se encontre para além do imaginário, ao nível do plano simbólico, da troca legal que só pode se encarnar pela troca verbal entre os seres humanos."

(Lacan, Seminário 1)

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