sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
O que pode uma mulher?
Por Maria Rita Kehl
Até pelo menos a segunda metade do século XIX, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de que? De visibilidade, diria Hanna Arendt. De visibilidade pública.
O termo é impreciso, pois nunca faltou visibilidade ao corpo feminino. Nem sob os véus islâmicos. Nem sob o jugo torturante de anquinhas e espartilhos. Do que as mulheres estiveram privadas até o século XX foi de presença pública manifesta não em imagem mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social. Ouvi do filósofo Bento Prado, em 1988, uma brilhante interpretação para a provocação lacaniana que diz “não existe A mulher”. Bento sugeriu que a inexistência de um significante que represente, no inconsciente, o conjunto das mulheres, deve-se ao fato de as mulheres, durante séculos, não terem inscrito sua experiência no campo da cultura. Foram objetos do discurso dos homens, não sujeitos de um discurso próprio.
No último século, o avanço das mulheres sobre todos os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita “natural”, entre os sexos. Isto produziu nos homens o efeito de uma perda. Ou de uma feminização. A masculinidade, construção discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente abalada. A pergunta freudiana, “o que quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: o que é um homem? O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?
Se na vida pública os campos já se embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece banal: um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher. Isto torna o poder sexual das mulheres quase intolerável, com efeitos terríveis de aumento da violência doméstica. Se a satisfação da mulher é a prova dos nove da masculinidade do homem, pode-se dizer que esta é hoje uma fortaleza sitiada. Ou uma “identidade” (aspas necessárias) acuada. Os acuados, como se sabe, costumam ficar violentos – mas a brutalidade não pode ser o último avatar da masculinidade.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz – supondo, como é provável que ela pense, que o problema seja apenas dele. Supondo que, no sexo, alguém possa satisfazer o outro por completo. Outro aforismo provocativo de Lacan, “não existe a relação sexual”, refere-se à impossibilidade de complementariedade perfeita entre os sexos. Até mesmo o casamento, que na modernidade inspirou-se na idéia de que homem e mulher poderiam formar dois-em-um, já não é o que prometia ser.
Resta a histeria, esta forma de sofrimento neurótico que muitos psicanalistas (homens) consideram como o paradigma da feminilidade. A histérica acredita n’O Homem como detentor do falo – o que a torna irresistível para os que ainda esperam manter os territórios masculino e feminino rigorosamente diferenciados. Só que a demanda histérica é impossível de satisfazer, o que acaba por desmoralizar o poder masculino. A histeria seria uma espécie de “feminismo espontâneo”, na expressão de Emilce-Dio-Bleichmar: uma recusa do lugar estereotipado de castradas aliada à ignorância sobre o caráter simbólico do falo e da castração.
A alternativa seria a invenção de uma nova arte erótica, mais de acordo com as possibilidades de troca que já estão abertas, embora mal aproveitadas, a partir das novas configurações do masculino e do feminino. A relativa feminização dos homens e a recém conquistada “masculinidade” nas mulheres podem contribuir para romper os automatismos sexuais que sempre empobreceram a experiência erótica de uns e de outras. Se a delicadeza não precisa estar toda do lado das mulheres, os homens já não precisam se garantir pela força. Nem pela brutalidade.
Mas é preciso coragem e um pouco de imaginação para ultrapassar a miragem fálica que estereotipa a diferença sexual. As mulheres, que já nasceram “sem nada a perder”, poderiam ensaiar a mestria nas artes eróticas que a imaginação literária há muito lhes havia reservado.
Texto completo em: http://www.mariaritakehl.psc.br/conteudo.php?id=166
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