Alguns
anos atrás, um comercial de cerveja encantador foi exibido na TV
britânica. Ele começava com o conhecido encontro de conto de fadas: uma
moça caminha à margem de um riacho, vê um sapo, pega-o gentilmente no
colo, beija-o, e é claro que o sapo feio se transforma num belo rapaz.
Mas a história não termina aí: o rapaz lança um olhar ávido para a moça,
puxa-a para si, beija-a e ela se transforma
numa garrafa de cerveja que o homem segura triunfantemente na mão. Para
a mulher, o importante é que seu amor e afeição (indicados pelo beijo)
transformam o sapo num belo rapaz, uma presença fálica plena; para o
homem é reduzir a mulher a um objeto parcial, a causa de seu desejo. Por
causa dessa assimetria, não há nenhuma relação sexual: temos uma mulher
com um sapo ou um homem com uma garrafa de cerveja. O que nunca podemos
obter é o belo casal natural de um homem e uma mulher: a contrapartida
fantástica desse casal ideal teria sido a figura de um sapo abraçando
uma garrafa de cerveja - uma imagem incongruente que, em vez de garantir
a harmonia da relação sexual, faz sobressair sua ridícula disparidade.
Slavoj Žižek – “Como ler Lacan”, p. 71
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