sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.



A desumanização é tão dolorosa como perder tudo, meu amor. Eu abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular. É que eu não tinha mais o que articular. Minha agonia era como a de querer falar antes de morrer. Eu sabia que estava me despedindo para sempre de alguma coisa, alguma coisa ia morrer, e eu queria articular a palavra que pelo menos resumisse aquilo que morria. Afinal, consegui pelo menos articular um pensamento: "estou pedindo socorro". Ocorreu-me então que eu não tinha contra o que pedir socorro. Eu não tinha nada a pedir. De repente era isso. Eu estava entendendo que "pedir" eram ainda os últimos restos de um mundo apelável que, mais e mais, se estava tornando remoto. ... Cada vez mais eu não tinha o que pedir.
O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário