Ir
mais além, "perto do coração selvagem" da vida, ver o essencial no mais
banal, recusar as certezas em prol do espanto, não se deixar obscurecer
pela trivialidade à qual o dia a dia convida incessantemente, pressentir
o mistério onde o óbvio parece se estampar, desejar algo a mais quando a
satisfação se mostra aparentemente total, indagar os fatos cuja
eloquência adquire o status da
suficiência: em suma, desfazer o sentido onde ele se quer mais cabal,
aspirar obtê-lo onde ele resiste opaco. Trata-se de uma verdadeira
metodologia que se acha em jogo aqui: por um lado, aumentar o gradiente
de enigma inerente ao visível, cuja legitimidade é questionada; por
outro, dirigir-se a um horizonte inesperado pelo gozo da diferença mais
radical.
(...) A experiência analítica visa, em última instância, ao
despertar. Despertar do sono no qual o sujeito se achava mergulhado e
que dava algum sentido à sua vida. Com ele, o sentido deverá ser
reinventado, e a liberdade que então advém é congruente com uma radical
entrega a tudo aquilo que porventura possa vir do real.
Marco Antonio Coutinho Jorge - A clínica da fantasia
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