sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Efeitos epistêmicos de final de análise


Jacques-Alain Miller - O Ser e o Um

Para Lacan, há efeitos epistêmicos que são adquiridos no final da análise.
O primeiro efeito epistêmico é um efeito de inquietação devido precisamente ao fato de a segurança do sujeito, propiciada pela fantasia que lhe fixa seu lugar em relação ao real, fantasia que lhe diz o que o real significa para ele, essa segurança, diz Lacan, é emborcada, ela escorre ao mesmo tempo em que é posta de pernas para o ar. É o momento em que o sujeito pode, de fato, perceber que as categorias significativas que organizaram seu mundo são tão somente de seu mundo próprio. (...)
Em segundo lugar, há um efeito de deflação do desejo. Para falar com propriedade, o desejo não apreende nenhum ser, o ser que suscita o desejo só deve o seu brilho, sua atração, da libido que nele investi. Lacan o expressa dizendo que a apreensão do desejo se revela como sendo apenas apreensão de um des-ser. O des-Ser é um não-ser que acreditávamos ser e que é destituído dessa qualidade. (...) O desinvestimento libidinal faz dele um des-ser e não resta senão uma essência evanescente, ou seja, uma significação que se dissipa e que se revela envelopando meu gozo. O que dava brilho ao desejo era apenas o que envelopava meu gozo.
O terceiro efeito epistêmico, segundo Lacan, desata o laço com o analista como representante do sujeito suposto saber. Revela-se, assim, que esse sujeito suposto saber, no qual eu me sustentava em minha busca de analisante, não passava de uma significação que dependia de meu desejo. E, com a deflação do desejo, com a virada de seu objeto em des-ser, meu laço com o sujeito suposto saber a um só tempo se distende e se rompe.

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