sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Imperativo ao gozo

""De um lado, há hoje um problema com o fracasso das ordens simbólicas - do "Grande Outro", como diz Lacan. Isso conduz a um regime de interiorização das regras, e então, segundo Freud, a uma hipertrofia do superego. Ora, como Lacan o havia visto bem, o superego funciona como imperativo de gozo e também como interdito. A conseqüência paradoxal e trágica é uma corrida desenfreada ao gozo que acaba, evidentemente, na impossibilidade de gozar, pois o superego exige cada vez mais. Meus amigos psicanalistas me contam que hoje em dia o sentido de culpabilidade de seus pacientes não é mais fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de gozar, "de aproveitar". Agora, as pessoas não se sentem mais culpadas, quando têm prazeres ilícitos, como antes, mas quando não são capazes de aproveitá-los, quando não chegam a gozar. Mas, de outro lado, não se deve concluir, com certos semi-lacanianos como Pierre Legendre, que seja preciso restabelecer a Lei e a Ordem simbólica como espaço de transgressão. Lacan era grande inimigo do pensamento de Bataille, e isso não somente por razões puramente pessoais: o problema, a seus olhos, é que o desejo se encontra justamente, em Bataille, totalmente edificado sobre a transgressão.

A psicanálise tem aqui um papel essencial a desempenhar. Todos os outros discursos adquirem a forma de injunção para gozar, para buscar a felicidade. Mesmo o Dalai-Lama aderiu! A psicanálise é um discurso que não impede de gozar, mas que permite justamente não gozar. Você pode gozar, mas não sob a forma de uma regra, de uma interiorização "superegoica". Por isso, o pensamento freudiano é mais atual do que nunca. (...) seu problema jamais esteve na repressão ou no interdito: ele estava antes no paradoxo de uma permissão que bloqueia o gozo. Não é na atualidade que podemos desembaraçar-nos desta imagem simplista de um Freud que combate a opressão sexual. Todos os freudo-marxistas inteligentes o compreenderam. Por isso, Adorno sempre criticou Reich e sua idéia de uma explosão orgástica. " Zizek: http://zizek.weebly.com/texto-011.html

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