""De um lado, há hoje um problema com o
fracasso das ordens simbólicas - do "Grande Outro", como diz Lacan. Isso
conduz a um regime de interiorização das regras, e então, segundo
Freud, a uma hipertrofia do superego. Ora, como Lacan o havia
visto bem, o superego funciona como imperativo de gozo e também como
interdito. A conseqüência paradoxal e trágica é uma corrida desenfreada
ao gozo que acaba, evidentemente, na impossibilidade de gozar, pois o
superego exige cada vez mais. Meus amigos psicanalistas me contam que
hoje em dia o sentido de culpabilidade de seus pacientes não é mais
fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de gozar, "de
aproveitar". Agora, as pessoas não se sentem mais culpadas, quando têm
prazeres ilícitos, como antes, mas quando não são capazes de
aproveitá-los, quando não chegam a gozar. Mas, de outro lado, não se
deve concluir, com certos semi-lacanianos como Pierre Legendre, que seja
preciso restabelecer a Lei e a Ordem simbólica como espaço de
transgressão. Lacan era grande inimigo do pensamento de Bataille, e isso
não somente por razões puramente pessoais: o problema, a seus olhos, é
que o desejo se encontra justamente, em Bataille, totalmente edificado
sobre a transgressão.
A psicanálise tem aqui um papel essencial
a desempenhar. Todos os outros discursos adquirem a forma de injunção
para gozar, para buscar a felicidade. Mesmo o Dalai-Lama aderiu! A
psicanálise é um discurso que não impede de gozar, mas que permite
justamente não gozar. Você pode gozar, mas não sob a forma de uma regra,
de uma interiorização "superegoica". Por isso, o pensamento freudiano é
mais atual do que nunca. (...) seu problema jamais esteve na repressão
ou no interdito: ele estava antes no paradoxo de uma permissão que
bloqueia o gozo. Não é na atualidade que podemos desembaraçar-nos desta
imagem simplista de um Freud que combate a opressão sexual. Todos os
freudo-marxistas inteligentes o compreenderam. Por isso, Adorno sempre
criticou Reich e sua idéia de uma explosão orgástica. " Zizek: http://zizek.weebly.com/texto-011.html
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