sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Não se deve imaginar compreender o paciente.
"No que diz respeito a compreender o paciente, privilégio da psicanálise sobre a psiquiatria, trata-se do contrário. Aprendemos com a experiência psicanalítica que não se deve prejulgar o significado ligado a um significante. Ainda mais hoje em que o vocabulário psi se infiltrou no cotidiano. Quando o paciente nos diz ter depressão, fazendo ele próprio o diagnóstico, que quer dizer? Não devemos imaginar ter compreendido o que a "depressão" quer dizer. Da mesma forma não devemos nos contentar com o diagnóstico da histeria quando o paciente diz ter alucinações, pois o psicótico não diz isso, mas tem. Pelo contrário, este diz ser real. Este é um dos critérios que faz a diferença entre o histérico e o psicótico. Se há uma lição a tirar da experiência psicanalítica, é a de que não se deve imaginar compreender o paciente; seria uma elucubração.
Quando Lacan fez o seminário sobre a psicose, seu primeiro cuidado foi o de demolir a ideia das relações de compreensão, pois é a mais perigosa que se pode ter. Por essência, devemos nos manter a uma certa distância do outro. O humanitarismo que consistiria pura e simplesmente em dizer 'tu és meu irmão' é a via mais opressiva, a via da dominação. O que nos importa é perceber o discurso do outro em sua particularidade, sem prejulgar a partir de um acordo de almas ou de consciências". (Jacques-Alain Miller - Lacan Elucidado - Conferência de 1981)
“Vocês não devem quebrar a cabeça para tentar entender algo procurando compará-lo com algo semelhante que já é familiar para vocês; vocês devem reconhecer nisso um fato fundamentalmente novo”. Freud – Conferências Introdutórias sobre Psicanálise.
"Que é o significado se não o que comumente chamamos de pensamentos ou ideias? E o que são pensamentos senão combinações de significantes, ou seja, significantes amarrados de uma forma particular? Quando nós “pegamos” o significado de algo que alguém diz, o que ocorre senão situar o enunciado em um contexto de outros enunciados, pensamentos e termos? Para compreender algo, precisamos localizar ou inserir uma configuração de significantes dentro de outra (...). É precisamente na medida em que a compreensão envolve nada mais que situar uma configuração de significantes dentro de outra que Lacan é tão inflexível sobre recusar-se a entender, sobre se esforçar para adiar a compreensão, pois no processo de compreensão tudo é trazido de volta ao nível do status quo, ao nível do que já é conhecido.
“A compreensão verdadeira” é, claro, um equívoco, na medida em que o entendimento é precisamente um curto-circuito desnecessário, irrelevante para o processo. O que realmente está implicado é que algo muda no processo analítico, e é este o ponto da psicanálise lacaniana: algo ocorre na fronteira do simbólico e do real que nada tem a ver com a compreensão, como é comumente entendida. Daí a irrelevância do termo “insight” no processo analítico: a frustração subjetiva do analisando por não entender o que está acontecendo, como o processo analítico é suposto funcionar, o que está realmente no fundo de sua neurose, e assim por diante de modo algum impede a eficácia da psicanálise. Freud ocasionalmente observa que o analisando que está a algum tempo em análise muitas vezes se lembra pouco, ou quase nada, e não entende o que ocorreu durante o processo". Bruce Fink – O Sujeito Lacaniano
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