sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
A identificação, o sintoma, e a identificação ao sintoma.
Colette Soler.
A função da identificação para o ser falante não é bem percebida senão a partir do status do sujeito tal como Lacan o construiu: como efeito de linguagem. Esse sujeito suposto em toda articulação significante não tem outra essência senão sua diferença com a cadeia que o representa ocultando-o, e ele não afirma sua presença senão por uma dinâmica de deslocamento e de corte: um vazio em movimento, de algum modo. Este sujeito é uma espécie de fantasma – Lacan chegou a chamá-lo de furão – e sem dúvida é por isso que existem fantasmas no seu imaginário. Ele assombra a casa da linguagem com sua presença de enigma, sem forma e impossível de fixar residência. A identificação é justamente o que lhe dá rosto e lugar.
A identificação é princípio de parada, de fixação do ser. É evidentemente ao preço de uma ocultação, pois desde logo a máscara invade a cena, e o “eu sou” no qual se instala o sujeito se paga com o “não pensar”. Este eventualmente não impedirá nosso sujeito identificado de ser um intelectual. Apenas, ele pensará em tudo exceto no que ele é como sujeito do inconsciente. Mas seja qual for a contrapartida, as identificações, por mais diversas que sejam, e até a “identificação última” ao significante da falta do Outro, o falo, as identificações vestindo o vazio do sujeito, garantem uma determinação do ser.
Os psicanalistas de todas as linhas concordariam com isso: a identificação é um estigma sobre o sujeito das influências do Outro, inclusive dos outros sem maiúscula, os semelhantes. Ela retira deste Outro, com ou sem maiúscula, um elemento, traço unário, que vai doravante marcar o sujeito, orientá-lo, determiná-lo ao menos parcialmente, e que assinala seu caráter educável, aberto à influência (...).
O sintoma é totalmente o oposto. Se a identificação cria o mesmo, o sintoma cria a diferença. Sempre singular, rebelde à universalização, ele é princípio de dissidência, para usar um termo de ressonância política que, aliás, Lacan aplica à pulsão. (...) Impossível de homogeneizar, ele tem alguma coisa de real: não seria excessivo falar de automatismo do sintoma, já que ele faz objeção a todo diálogo.
(...) A noção de identificação ao sintoma é coerente com a necessidade de reatar o nó, no final de uma análise, com o efeito de ser: obter um sujeito novamente determinado quanto ao que ele quer e quanto ao que ele é, mas... não pela via de identificação ao Outro. Esta é a tese de Lacan desde sempre. Já em seu “Estádio do espelho” ele evocava um termo em que o sujeito se reúne com o limite extático de um “tu és isso”. A palavra extático estando ali para dizer que é antes a resposta do ser não representável aquela esperada, e por uma razão muitíssimo simples: é que a identificação não pode perpetuar senão a regência do Outro. O ser que ela parece garantir não passa de mascarada e mentira, e o analista não poderia tornar-se cúmplice disso. A identificação ao sintoma, no outro extremo do ensino de Lacan, designa a finalidade primeira da análise, qual seja, reunir-se em um “eu sou” que não seja semblante. Ela indica o esforço por uma técnica que, no entanto, é apenas uma fala, para atingir o que no sujeito não é do registro simbólico mas do real, que zomba daquilo que se pensa e do que se julga, e até mesmo de se pensar e se julgar, “se” não sendo aqui nada além de um nome do Outro, do sujeito suposto saber. O sintoma representa justamente um tal real”.
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