sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Real, o Imaginário e o Simbólico.


Por MD Magno - O Pato Lógico.

Tudo indica que esse imaginário que seria o do falante, sua escrita de base, seu programa, que o qualificaria definitivamente como sendo tal diferença, em relação a tais outras, marcadas as diferenças, tudo indica que essa configuração é furada, furada em todos os sentidos do bom português. É como se aquele texto que lá está escrito, configurando, dando a gestalt desses seres, pudesse existir sim, mas apresentasse um furo. Falta alguma coisa para saber o que ele é. É como se houvesse todo um programa cibernético instalado... mas nesse texto há uma falta, falta um pedaço, é incompleto.
Se num texto falta um pedaço, para dar sentido ao texto posso pôr qualquer coisa nesse lugar, na tentativa de dar sentido. Só que nenhuma serve. Porque, se essa falta é originária, se ela sempre foi falta, lá nunca esteve nada, nem se pode saber o que lá estaria, se estivesse. Mesmo que se passe por ali toda e qualquer tentativa de completude, qual é a que se vai espelhar no texto correto se ele lá não estava?
O que vemos repetir-se constantemente em todos os comportamentos, atos, em todas as falas, todos os discursos do falante, é o não-saber o que estaria lá, porque lá não estava nada, estava o furo, o buraco, a cova.
É daí que parte a psicanálise. A psicanálise não faz de conta que tem a rolha para o furo. Ou seja: não parte de um supositório, mas de uma suposição, quer dizer, reconhece que não há discurso que tape esse furo, pois que essa falta é originária. A coisa que estaria lá naquele lugar, o pedaço faltoso de escritura, é isto que Freud chama Das Ding. Frequentemente podemos tomar alguma coisa pelo que falta, a mãe, por exemplo, e a gente se agarra naquilo. Não que o que falta seja a mãe, o que falta é Aquilo. Ali, sempre vai se colocar alguma coisa - só que nada serve.
No imaginário do falante há um furo real. Por isso o falante se coloca a questão do real, coisa que nenhum bicho faz, pois que vive o seu imaginário e se comporta por ele. Já o falante, ele se pergunta sobre isso: O Real, o que é isso? O que é a real realidade das coisas?
O que é esse real? É exatamente Aquilo, que eu não posso tocar, aquilo que é impossível, porque não há, o que está faltando ali para me deixar na paz do imaginário. É impossível escrever alguma coisa que seja a correta, que me transforme num animal, que me dê uma configuração definitiva, porque, não sabendo qual é o original, aonde vou espelhar esse objeto, essa escrita, aonde vou fazer a correlação biunívoca? Não há como.
Então, esse imaginário furado vai ser sucessivamente tapado, porque, a cada momento em que as inscrições correm, o buraco se repete, sempre o mesmo, a mesma falta, o mesmo furo. E a com-sideração da borda desse furo não é outra coisa senão tentar percorrer, ou seja, colocar alguma coisa no lugar. Colocar o quê, no lugar? Um substituto. Tudo o que lá se colocar, na tentativa de arrolhar, será um substituto, e como substituto não serve porque não é o que lá estaria. Então, torno a substituir por outra coisa, que não serve, mas passo, porque se repete insistentemente a presença ausentificada desse furo, ou ausência presentificada, porque dói o buraco. E a cada repetição, a satisfação é colocar alguma coisa no lugar, mas que não serve.
Isto não é senão o que chamamos de Simbólico, aquilo que vem tapar o furo, substituir, sem conseguir, porque também é furado, não serve. É que eu tento tapar um furo com outro furo.

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