sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
As manifestações do não-toda (parte 2)
"Afinal, o que quer Ysé? Seria apressado concluir, a partir de suas flutuações, que ela não sabe o que quer, como se diz tão frequentemente das mulheres. Suas flutuações antes traduzem que ela não ousa querer - no sentido da vontade assumida - o que ela deseja no sentido do inconsciente, como Outro. Sem dúvida, ela não sabe o que é, exceto que isso se manifesta sob a forma de uma tentação, contra a qual ela apela para o esposo e para amores mais ponderados. Ela não pode evocá-lo senão como esse poder que barra tudo o que o Outro fez emergir, esta fascinação pelo abismo, "desumana e parente da morte". Assim, a esplêndida Ysé, com seu belo sorriso e toda sua malícia juvenil, nos faz perceber um horizonte antes funesto, no qual reina a aspiração mortal que rompe todo laço humano, que apaga os homens que ela ama assim como os filhos que a peça deixa ausentes, porém sobre os quais várias vezes ela diz o quanto lhe eram preciosos, em nome de um voto propriamente abissal, de uma vertigem do absoluto, da qual o amor e a morte não são senão os nomes mais comuns, e para os quais o nome do gozo não seria mal vindo. Em Ysé, não é a traição que faz a marca própria da mulher. Certamente ela trai, mas não um objeto com outro, um homem com outro; ela trai antes todos os objetos que respondem à falta inscrita pela função fálica em benefício do abismo. Esse traço de aniquilamento, quase sacrificial, é a marca própria que designa o umbral, a fronteira da parte não-toda fálica. (...) De fato, se o não-toda tem a ver com "um bem no segundo grau", que não é causado por um objeto a - notemo-lo - sua diferença não poderia se fazer valer senão em uma démarche de aspecto subtrativo, que é propriamente de separação, na qual se afirma uma emancipação anuladora, no sentido libidinal do termo, em relação a todo objeto. Não é o furtar-se da histérica, tampouco a ambivalência denegadora, pois ambas descobrem apenas o parêntese vazio em que vêm todos os objetos do sujeito, ao passo que a outra visada apaga do mesmo modo esse vazio do qual o objeto se sustenta. De onde, às vezes, posturas que cremos de liberdade soberana!".
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