sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Psicanálise e Ciência


por Christian Dunker

A psicanálise é uma ciência desde que não se entenda a ciência como sistema completo. Ou seja, o critério de cientificidade, um critério que resiste ao tempo, não é o acúmulo triunfal de saber, mas o contrário, a capacidade de errar, de reinterpretar e criar problemas. Essa é a diferença entre ciência e metafísica, a ciência se equivoca e é capaz de reconhecer isso. Portanto, quando alguém diz, acerca do tratamento do autismo, que a psicanálise culpabilizou os pais e particularmente a ”mãe geladeira”, é preciso dizer que sim, e que a mudança na concepção de tratamento, desde Freud, não é um traço de anacronismo, mas da cientificidade da psicanálise. Se a psiquiatria da década de 1930 amarrava crianças às suas cadeiras e as “modernas técnicas educativas” dos anos 1950 trancavam crianças em quartos escuros à guisa de recompensa e punição, isso não significa que a psiquiatria seja indiferente à ciência. (...)
Para uma abordagem específica da dimensão propriamente epistemológica da psicanálise remeto vocês aos trabalhos nos quais tenho defendido a ideia de que a psicanálise ocupa o lugar do que Kuhn chamava de anomalia cientifica. Para o autor de “Tensão Essencial”4 a anomalia era originalmente um fenômeno reconhecido por uma comunidade científica como explicável por um determinado paradigma, mas que, não obstante, era refratário à sua decifração. Admitido o estado de ciência normal, a anomalia deve ser incluída ou neutralizada pelo paradigma. Quando isso não ocorre, a anomalia pode induzir crise e subsequentemente revolução científica, fazendo emergir um novo paradigma. Considero que a psicanálise é o análogo de uma anomalia desse tipo, tomada como um fenômeno histórico parasitário da epistemologia, uma vez que ela não pode nem ser propriamente incluída, nem propriamente expelida como um epifenômeno inconsequente. (...)
Mas creio que essa discussão está muito longe do impasse que se apresenta em nosso momento. E ele é um impasse curioso, porque parte de afirmações ridiculamente banais contra a cientificidade da psicanálise. Desde a mudança epistemológica dos anos 1980 a ciência passou a ser um assunto legislado e definido pela existência de uma comunidade de cientistas. A ciência é o que os cientistas fazem e o que os cientistas fazem é ciência. Podemos nos indignar com essa tautologia, mas ela representa o estado de coisas em vigor hoje no mundo. (...)
O único ponto no qual essa estratégia parece funcionar é o da divulgação científica, ponto no qual nossa inabilidade crônica em expor ideias e de abrirmo-nos a alguma externalidade é problemática. Isso emana do antigo argumento de que a psicanálise não deve ser nem se coordenar pelas massas, que ela é um bem precioso para uma elite bem formada. Mais uma vez são nossos próprios preconceitos que trabalham e depõem contra nossa cientificidade, não a matéria mesma que está em questão. Nos opomos à retórica da novidade, nos opomos à ideologia dos resultados, das aquietações institucionais, nos indispomos com o senso comum da pressa e da conformidade, não queremos saber de pactuar com as estratégias racionais e principalmente normativas dominantes. Reencontramos aqui nosso lugar de anomalia e resistência cultural. Mas para fazer isso não precisamos nos segregar da ciência.

Texto completo em: http://psicanaliseautismoesaudepublica.wordpress.com/2013/04/16/psicanalise-e-ciencia-do-equivoco-ao-impasse/

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