A
fantasia fundamental, concebida por Lacan como "o que instaura o lugar
onde o sujeito pode se fixar como desejo", pode ser considerada uma
espécie de prisão domiciliar do sujeito: nela ele se encontra
confortavelmente instalado, rodeado pelos objetos investidos por sua
libido e pelos objetos que lhe são familiares, desfrutando de uma
tranquilidade que beira a inércia - mas está preso! Em seu interior,
ele segue uma vida regida pelo princípio de prazer, mas, sem se dar
conta disso, encontra-se radicalmente limitado por tudo aquilo que é
prazeroso. O sujeito só perceberá que se trata efetivamente de uma
prisão ao fim da análise. Também é bastante comum ouvir-se no cotidiano
alguém dizer: "Tudo o que eu quero é paz!". Analiticamente, é possível
ouvir nesse pedido de paz o eco de outro pedido: "Não me tirem de meu
conforto fantasístico".
A metáfora da prisão domiciliar é fecunda
para tratar da fantasia: a prisão limita os movimentos do sujeito, dá um
enquadramento restrito a eles, torna suas explorações no mundo pequenas
e confinadas a determinadas regiões já conhecidas. Trata-se de uma
redução brutal de sentido, constituído pela articulação
simbólico-imaginária, para fazer face à falta de sentido do real. Como
formula Lacan nessa mesma direção, "o próprio sujeito se reconhece ali
como detido, ou, para lembra-lhes uma noção mais familiar, fixado".
Marco Antonio Coutinho Jorge - A clínica da fantasia
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