sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Fantasia fundamental

A fantasia fundamental, concebida por Lacan como "o que instaura o lugar onde o sujeito pode se fixar como desejo", pode ser considerada uma espécie de prisão domiciliar do sujeito: nela ele se encontra confortavelmente instalado, rodeado pelos objetos investidos por sua libido e pelos objetos que lhe são familiares, desfrutando de uma tranquilidade que beira a inércia - mas está preso! Em seu interior, ele segue uma vida regida pelo princípio de prazer, mas, sem se dar conta disso, encontra-se radicalmente limitado por tudo aquilo que é prazeroso. O sujeito só perceberá que se trata efetivamente de uma prisão ao fim da análise. Também é bastante comum ouvir-se no cotidiano alguém dizer: "Tudo o que eu quero é paz!". Analiticamente, é possível ouvir nesse pedido de paz o eco de outro pedido: "Não me tirem de meu conforto fantasístico".
A metáfora da prisão domiciliar é fecunda para tratar da fantasia: a prisão limita os movimentos do sujeito, dá um enquadramento restrito a eles, torna suas explorações no mundo pequenas e confinadas a determinadas regiões já conhecidas. Trata-se de uma redução brutal de sentido, constituído pela articulação simbólico-imaginária, para fazer face à falta de sentido do real. Como formula Lacan nessa mesma direção, "o próprio sujeito se reconhece ali como detido, ou, para lembra-lhes uma noção mais familiar, fixado".

Marco Antonio Coutinho Jorge - A clínica da fantasia

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