Colette Soler
Declinações da angústia
A ideia de que o capitalismo visa à mais-valia não é para ser
confundida com a ideia de que o capitalista seja um gozador. A
mais-valia subtraída do proletário é, de fato, reinvestida no regime
capitalista; ela não é consumida nem poupada. É o primeiro ponto:
capitalismo, cultura da falta-de-gozar.
O segundo ponto é muito mais
importante, e é uma interpretação da função da ideologia da luta de
classes. Ela consiste em dizer que Marx, com isso, reforçou o discurso
capitalista. Bem longe de colocá-lo em perigo, ele o reforçou e Lacan
chega até mesmo a dizer em algum lugar: torná-lo definitivo.
O que é
que se passa na ideologia da luta de classes quando se desenvolve a
famosa consciência proletária, isto é, a consciência de ser explorado?
Na consciência proletária, a mais-valia torna-se o objeto que lhe é
subtraído, digamos o equivalente do objeto perdido, o objeto que é mais
que subtraído, o objeto que lhe é ocultado, portanto, que precisa ser
recuperado - é essa a luta de classes. Assim sendo, logo que a
mais-valia torna-se o objeto a ser recuperado para o explorado, também a
mais-valia torna-se a causa do desejo: eis a leitura feita por Lacan.
Ele a formula em Radiofonia com uma frase: "a mais-valia, causa de desejo do qual uma economia faz seu princípio".
Em consequência disso, constatamos a participação patente dos
explorados à sede da falta-de-gozar. Esta sede, esta avidez da
falta-de-gozar. Sua tese é de que todos têm a mesma causa de desejo, a
mais-valia. Conclusão: todos proletários!
Não se pode absolutamente,
portanto, escrever o par capitalista-proletário como se escreve
senhor-escravo. Pode-se apenas escrever capitalista e proletário - mesma
causa de desejo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário