sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A ideologia da luta de classes

Colette Soler
Declinações da angústia

A ideia de que o capitalismo visa à mais-valia não é para ser confundida com a ideia de que o capitalista seja um gozador. A mais-valia subtraída do proletário é, de fato, reinvestida no regime capitalista; ela não é consumida nem poupada. É o primeiro ponto: capitalismo, cultura da falta-de-gozar.
O segundo ponto é muito mais importante, e é uma interpretação da função da ideologia da luta de classes. Ela consiste em dizer que Marx, com isso, reforçou o discurso capitalista. Bem longe de colocá-lo em perigo, ele o reforçou e Lacan chega até mesmo a dizer em algum lugar: torná-lo definitivo.
O que é que se passa na ideologia da luta de classes quando se desenvolve a famosa consciência proletária, isto é, a consciência de ser explorado? Na consciência proletária, a mais-valia torna-se o objeto que lhe é subtraído, digamos o equivalente do objeto perdido, o objeto que é mais que subtraído, o objeto que lhe é ocultado, portanto, que precisa ser recuperado - é essa a luta de classes. Assim sendo, logo que a mais-valia torna-se o objeto a ser recuperado para o explorado, também a mais-valia torna-se a causa do desejo: eis a leitura feita por Lacan.
Ele a formula em Radiofonia com uma frase: "a mais-valia, causa de desejo do qual uma economia faz seu princípio".
Em consequência disso, constatamos a participação patente dos explorados à sede da falta-de-gozar. Esta sede, esta avidez da falta-de-gozar. Sua tese é de que todos têm a mesma causa de desejo, a mais-valia. Conclusão: todos proletários!
Não se pode absolutamente, portanto, escrever o par capitalista-proletário como se escreve senhor-escravo. Pode-se apenas escrever capitalista e proletário - mesma causa de desejo.

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