por Colette Soler
De um modo geral, gostamos do baile de máscaras. Deve ser como a
criança que brinca de reproduzir o fort-da ao qual se sujeita. Lacan se
divertia repetindo: no final do baile,
não era ele, não era ela. Mas será que sempre há um final de baile? Não
era ele, não era ela. A distância do semblante ao real aqui não se evoca
senão pela negação, e a própria "bem-aventurada" imaginação teria
muitas dificuldades de somente representar um "se fosse ele, se fosse
ela". Então, viva a comédia, única a ser recíproca entre os sexos.
No baile do Outro, mascarada feminina e parada viril se respondem com
precaução. Sem dúvida em benefício do riso, mas sem... simulação. O
recalque do falo, que ordena a relação entre o homem e a mulher, escava o
lugar onde o "parecer" (Lacan, 1958, p. 694) é mestre. Mas não nos
enganemos sobre o parecer: o ser é seu irmão siamês.
Em 1958 Lacan
respondia a questão de saber até onde vai o reino do semblante na
relação entre os sexos: até o ato da cópula. Nenhum mais-além, portanto.
O toque do Outro, do qual se desnatura a alteridade do sexo, não poupa a
intimidade da alcova e a mascarada não é um traje que se tire
atravessada a porta, porque não há porta além da qual a suposta natureza
retome seus direitos. Como os efeitos de gozo seriam disso poupados?
(...)
A mascarada, evocada por Lacan como efeito de véu, não
dissimula. Ela antes trai o desejo que a orienta. Isso quer dizer que a
interpretação não passa por trás do véu, mas conclui a partir do que aí
se desenha das demandas do Outro ao que as assedia. Todas as táticas de
adereço, no que manipulam o parecer, fazem aparecer a afinidade do
objeto com seu invólucro. Mesmo ao nível da causa do desejo, o hábito
faz o monge. É a ênfase do Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-3). O
objeto avança sempre mascarado, pois ele só é objeto à medida que o
Outro nele reconhece suas cores. Razão pela qual Don Juan é um mito.
(...)
A divergência dos sexos a respeito do semblante fálico se
repercute em uma dissimetria nos modos macho e fêmea de se dar ao
trabalho, como se diz: um desfila na parada como desejante, o outro,
como desejável, e a língua mantém o traço do umbral onde se detém o que
chamei de unissex, não importa qual seja seu império. De um lado, a
exibição ostentadora com sua nuança de intimidação defensiva. Do verbo
paramentar à parada viril há aliás a mesma etimologia, a conotação
militar não estando longe e o sério, sempre ali. Do outro lado, a
armadilha disfarçada, com sua nota de (fa)lácia, de astúcia e de...
derrisão. Um se paramenta com plumas de pavão, o outro, ou melhor a
outra, se faz camaleoa. Fazer consentir e fazer desejar têm este preço.
As maneiras variam sem dúvida, mas permanece a estrutura que sempre
envolve o ponto de falta do sujeito, não deixando lugar a nenhum novo
tratado da sedução.
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