sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Entre ser e parecer: a divergência dos sexos

por Colette Soler

De um modo geral, gostamos do baile de máscaras. Deve ser como a criança que brinca de reproduzir o fort-da ao qual se sujeita. Lacan se divertia repetindo: no final do baile, não era ele, não era ela. Mas será que sempre há um final de baile? Não era ele, não era ela. A distância do semblante ao real aqui não se evoca senão pela negação, e a própria "bem-aventurada" imaginação teria muitas dificuldades de somente representar um "se fosse ele, se fosse ela". Então, viva a comédia, única a ser recíproca entre os sexos.
No baile do Outro, mascarada feminina e parada viril se respondem com precaução. Sem dúvida em benefício do riso, mas sem... simulação. O recalque do falo, que ordena a relação entre o homem e a mulher, escava o lugar onde o "parecer" (Lacan, 1958, p. 694) é mestre. Mas não nos enganemos sobre o parecer: o ser é seu irmão siamês.
Em 1958 Lacan respondia a questão de saber até onde vai o reino do semblante na relação entre os sexos: até o ato da cópula. Nenhum mais-além, portanto. O toque do Outro, do qual se desnatura a alteridade do sexo, não poupa a intimidade da alcova e a mascarada não é um traje que se tire atravessada a porta, porque não há porta além da qual a suposta natureza retome seus direitos. Como os efeitos de gozo seriam disso poupados? (...)
A mascarada, evocada por Lacan como efeito de véu, não dissimula. Ela antes trai o desejo que a orienta. Isso quer dizer que a interpretação não passa por trás do véu, mas conclui a partir do que aí se desenha das demandas do Outro ao que as assedia. Todas as táticas de adereço, no que manipulam o parecer, fazem aparecer a afinidade do objeto com seu invólucro. Mesmo ao nível da causa do desejo, o hábito faz o monge. É a ênfase do Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-3). O objeto avança sempre mascarado, pois ele só é objeto à medida que o Outro nele reconhece suas cores. Razão pela qual Don Juan é um mito. (...)
A divergência dos sexos a respeito do semblante fálico se repercute em uma dissimetria nos modos macho e fêmea de se dar ao trabalho, como se diz: um desfila na parada como desejante, o outro, como desejável, e a língua mantém o traço do umbral onde se detém o que chamei de unissex, não importa qual seja seu império. De um lado, a exibição ostentadora com sua nuança de intimidação defensiva. Do verbo paramentar à parada viril há aliás a mesma etimologia, a conotação militar não estando longe e o sério, sempre ali. Do outro lado, a armadilha disfarçada, com sua nota de (fa)lácia, de astúcia e de... derrisão. Um se paramenta com plumas de pavão, o outro, ou melhor a outra, se faz camaleoa. Fazer consentir e fazer desejar têm este preço. As maneiras variam sem dúvida, mas permanece a estrutura que sempre envolve o ponto de falta do sujeito, não deixando lugar a nenhum novo tratado da sedução.

Nenhum comentário:

Postar um comentário