sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A função significante da palavra, por Luiz Alfredo Garcia-Roza, em "Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise".



Para Santo Agostinho, a verdade, ou já a possuímos, ou, se não a possuímos, não podemos adquiri-la pelas palavras ou pela experiência do mundo externo. "Com as palavras não aprendemos senão palavras", diz Agostinho a Adeodato, e mesmo isto não é inteiramente correto, pois o que de fato aprendemos são sons, os quais só sei que são palavras porque já conheço previamente seu significado.
Portanto, se compreendemos o que se exprime pelos signos da linguagem, é graças a algo exterior aos próprios signos e exterior à própria linguagem. Esse além-linguagem, poderíamos pensá-lo de duas maneiras: ou ele se daria pela apresentação repetida do objeto, ou ele não é dado porque nós já o possuímos como uma verdade interior. Santo Agostinho descarta a primeira hipótese por considerá-la insustentável. Se no lugar de uma palavra apontamos com o dedo o objeto, não teremos com isto resolvido o problema da significação. Assim, se aponto para alguém uma árvore, tentando com este gesto significar "árvore", a pessoa não saberá se o gesto indicativo refere-se à árvore, ao verde da árvore, à madeira que constitui a matéria da árvore, ou ainda ao fato dessa árvore ser uma mangueira. Ao contrário do que seríamos levados ingenuamente a pensar, a indicação não é necessariamente índice de objetividade, mas de ambiguidade.
A outra maneira de pensarmos esse algo externo ao signo e à linguagem, e que ao mesmo tempo é a condição de ambos, é a que Santo Agostinho defende com sua tese do mestre interior da verdade. Segundo ela, a verdade não está na linguagem, mas na interioridade do sujeito.
É essa interioridade que possibilita a linguagem e não o contrário. (...) Segundo Lacan, dizer que a verdade habita a interioridade do
sujeito não significa eliminar o fato de que a palavra se instaura e
se desloca na dimensão da verdade, mas sim que em presença das palavras não sabemos se elas são verdadeiras ou não; elas estão também inevitavelmente situadas no registro do erro, da equivocação, da mentira. (...) A função significante da palavra não se faz pela relação que ela possa ter com a coisa significada, mas sim pela relação que ela tem com as outras palavras. Assim, diz Lacan, "a linguagem só é concebível como uma rede, uma teia sobre o conjunto das coisas, sobre a totalidade do real. Ela inscreve no plano do real esse outro plano a que chamamos aqui o plano simbólico". A razão pela qual as coisas têm o nome que têm não está na coisa nem no signo considerado isoladamente, mas nas definições, isto é, nas relações entre os signos. Como as definições são equívocas e enganadoras, a verdade só pode ser encontrada fora da linguagem: na interioridade do sujeito. É a interioridade que sustenta a verdade do signo. O que podemos fazer com a linguagem é proceder a retificações sucessivas do discurso com base na sua consistência interna. Esta seria uma forma de diminuir o grau de equivocação nele presente de forma necessária. Assim, se chamo a mesa de "cadeira" e passo a falar que escrevi durante todo o dia sobre a cadeira e que guardo alguns objetos nas gavetas da cadeira, que meu abajur encontra-se sobre a cadeira, etc. acaba ficando evidente que sob o nome "cadeira" é da mesa que estou falando. O que torna o erro manifesto é a contradição do discurso. Lacan comenta que é isto que fundamenta a concepção hegeliana do saber absoluto: "O saber absoluto é o momento em que a totalidade do discurso se fecha sobre si mesma numa não contradição perfeita". Este é o sonho do discurso científico.

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