sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Papai Noel e o sujeito suposto crer


Segundo uma anedota antropológica muito conhecida, os primitivos a quem certas crenças supersticiosas foram atribuídas (por exemplo que eles descendiam de um peixe ou de uma ave), quando perguntados diretamente sobre essas crenças, responderam: "Claro que não - não sou tão bobo assim! Mas me contaram que alguns de nossos ancestrais realmente acreditavam que ...". Em suma, transferiam sua crença para outrem. Não estamos fazendo o mesmo com nossos filhos? Submetemo-nos ao ritual do Papai Noel, visto que nossos filhos (supostamente) acreditam nele e não queremos desapontá-los; eles fingem que acreditam para não nos desapontar em nossa crença na ingenuidade deles (e para ganhar presentes, é claro). Não é essa necessidade de encontrar um outro que "realmente acredita" que também nos impele em nossa necessidade de estigmatizar o outro como um fundamentalista religioso ou étnico? De um modo estranho, algumas crenças sempre parecem funcionar a uma certa distância: para que ela funcione, precisa haver um fiador supremo dela, algum crente verdadeiro, mas esse fiador é sempre adiado, deslocado, nunca presente em pessoa. O que importa, é claro, é que, para que a crença seja operativa, o sujeito que acredita diretamente não precisa existir em absoluto; basta precisamente pressupor sua existência, acreditar nela, seja na forma da figura fundadora mitológica que não é parte de nossa realidade, ou na forma do ator impessoal, o agente não especificado: "Dizem que ... ", "Diz-se que ... "
Talvez seja por isso que "cultura" surge hoje como a categoria central do mundo/vida. Com relação à religião, não mais "acreditamos realmente", apenas seguimos (variados) rituais e comportamentos como parte de um respeito pelo "estilo de vida" da comunidade a que pertencemos. "Não acredito realmente nisso, é apenas parte de minha cultura" parece ser o modo predominante da crença deslocada, característico de nosso tempo. "Cultura" é o nome para todas essas coisas que praticamos sem de fato acreditar nelas, sem levá-las inteiramente a sério. É por isso que rejeitamos crentes fundamentalistas como "bárbaros", como anticulturais, como uma ameaça à cultura - eles ousam levar suas crenças a sério.

Slavoj Zizek - Como ler Lacan

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