sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
O impossível e o feminino
por Serge André, em "O que quer uma mulher?"
O saber psicanalítico não funciona, assim, em posição de verdade, a não ser na medida em que opera como saber furado, afetado por uma falha central - o que determina o estatuto da verdade enquanto semidizer. A psicanálise não permite saber tudo, pois o inconsciente não diz tudo. Lacan nos convida a compreender que essa falha não é da ordem de uma imperfeição que os progressos da pesquisa permitiriam preencher, mas sim que ela constitui a chave para a própria estrutura do saber. Convém, pois, dar forma afirmativa a nossa proposição: a psicanálise permite saber o "não todo", porque o inconsciente diz "não todo".
As linhas que se seguem têm por ambição mostrar como, de Freud a Lacan, a psicanálise chegou a designar na feminilidade a figura maior, e sem dúvida original, desse "não todo" e, na teoria da castração, a resposta que o inconsciente elabora em face do impossível de dizer que o sexo feminino encarna. Resposta que, por operativa que seja, não deixa de permanecer uma ficção. A castração é a construção pela qual o ser humano procura dizer a falta, mas, por isso mesmo, ela ilustra que não se pode dizer a falta enquanto tal. Dizer a falta já consiste, de uma forma ou de outra, em preenchê-la. Como poderia ser de outro modo, a partir do fato de que somos, os seres falantes, dependentes do significante? A partir de que, como formula Lacan, "o inconsciente é estruturado como uma linguagem"? Não se pode tratar, para o psicanalista, de aderir à fórmula de Wittgenstein segundo a qual "aquilo de que não se pode falar, é preciso calá-lo". A primeira constatação efetuada pelo psicanalista é a de que o humano não para de querer falar daquilo que não pode dizer (a mulher, a morte, o pai etc.). A partir de então, nossa via de pesquisa se define por uma máxima impossível: aquilo de que não se pode falar, é preciso dizê-lo!
O que significa "ser uma mulher"? Eis aí a Questão por excelência, para a qual evidência alguma nos oferece seu apoio, como quando se trata de saber o que é um homem. Quanto ao que pode querer, como afirma a sabedoria ancestral, jamais se está seguro. De onde a incontornável oscilação entre o culto da mulher como mistério - enigma - e o ódio à mulher como mistificação - mentira. Mas essas duas posições só servem para alimentar o desconhecimento do que constitui a verdadeira questão da feminilidade, pois postulam, todas duas, que a mulher é como um esconderijo que dissimularia alguma coisa.
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