sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O corpo é escrito com significantes



Um dos meus últimos analisandos reclamou de uma abundância de sintomas psicossomáticos que mudavam o tempo todo, embora tão devagar que cada sintoma tinha tempo suficiente para fazer com que ficasse muito preocupado e fosse ao médico imediatamente. Em dado momento, esse analisando ouviu um de seus amigos dizer que tivera, de repente, um caso agudo de apendicite, que o havia levado a uma operação de emergência. O analisando perguntou a sua esposa qual era o lado do corpo onde ficava o apêndice, e ela informou. Algum tempo depois, o analisando, muito estranhamente, começou a sentir dores nesse mesmo lugar de seu corpo. As dores persistiram; o analisando ficou cada vez mais convencido de que seu apêndice iria romper em breve e, por fim, decidiu ir ao médico. Quando o analisando mostrou ao médico o lugar da dor, este começou a rir e disse: "Mas o apêndice é do outro lado: seu apêndice está na direita, não na esquerda!". A dor sumiu de imediato e o analisando sentiu-se obrigado a explicar que sua esposa certamente havia se enganado ao dizer-lhe que o apêndice ficava do lado esquerdo. Saiu da sala de exames se sentindo um tanto bobo.
A moral da história é que o conhecimento, conhecimento conforme incorporado nas palavras "apêndice", "esquerda", e assim por diante, permitiu que um sintoma psicossomático se desenvolvesse num lado do corpo onde mesmo um médico mal informado descobriria o erro. O corpo é escrito com significantes. Se você acredita que o apêndice está do lado esquerdo, e por identificação com alguém ou como parte de uma vasta série de sintomas psicossomáticos você acaba tendo uma apendicite, vai doer, não no órgão biológico, mas onde você acredita que o órgão esteja localizado.

Bruce Fink - O sujeito lacaniano

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