"A
"bela alma" pretende descrever o estado deplorável do mundo como se dele
estivesse excluída, como se o olhasse de uma distância objetiva,
digamos, de uma distância de metalinguagem. Mas ela se esquece de
incluir nisso sua própria posição subjetiva, o fato de que quer o mundo
tal como ele é para poder continuar a ocupar sua cômoda posição de
vítima explorada — todo o seu gozar narcísico se prende a esse papel, sua identidade de vitima explorada dá consistência a seu eu imaginário.
(...)
A consciência julgadora, dessa maneira, afigura-se ainda pior do que a
consciência pecadora e atuante: o mal absoluto é o olhar inocente que
percebe o mal por toda a parte, exatamente como em A Volta do Parafuso,
de Henry James, onde o verdadeiro mal é o próprio olhar da professora
que percebe por toda parte a presença de espíritos maléficos. O mal não
está no ato, que sempre possui uma dimensão universal, ainda que esta
seja desconhecida pelo sujeito agente, mas no olhar que reduz o ato a
seu conteúdo particular. Hegel completa aqui a célebre frase de
Napoleão, "Não se é herói para o próprio criado de quarto",
acrescentando: "Não porque um não seja herói, mas porque o outro é um
criado de quarto." "
Zizek, O Mais Sublime dos Histéricos: Hegel com Lacan, p.85-87
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