sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Pobre obsessivo...


A histeria tem seu esplendor, a psicose sua aura trágica, a perversão seu fascínio, mas a neurose obsessiva é sempre um pouco ridícula. O obsessivo é o careta entre os neuróticos, e sempre relatamos seus sintomas com um certo sorriso de ironia.
Seus sintomas são picuinhas. Seu sofrimento consiste em ter que se haver com mandatos e injunções simultâneas, contraditórias e absurdas, referentes a pequenos detalhes da ordem cotidiana pelas quais um histérico, por exemplo, passaria batido. O obsessivo é o síndico, o legalista, o bedel. O que tenta barrar qualquer excesso no gozo do seu semelhante, que possa lembrar-lhe tudo quanto ele mesmo não se permite. Ainda quando seu sintoma se manifesta na forma da delinqüência por sentimento de culpa, é para afirmar a lei, para fazê-la funcionar ao pé da letra que ele transgride e se faz castigar.
Pobres obsessivos, que se levam a sério demais e, sobretudo, que levam o Outro a sério. Se o paranóico se vê constantemente ameaçado de ser arrebatado pelo gozo do Outro e responde à convocação colocando-se no centro de uma cena grandiosa, o palhaço de Deus (Nijinsky), a mulher de Deus (Schreber), o encarregado de barrar os anjos do apocalipse (Bispo do Rosário), o obsessivo sente-se compelido a responder ao Outro continuamente. Não interpela o Outro como na histeria, pois para isso precisaria estar do lado feminino, o lado da castração. Ao Outro, o obsessivo desafia e responde. O saber do outro existe, sem furos, e lhe aparece sempre como algo que ainda lhe falta dominar. É um paranóico de pequenas causas, que não sabe, ou mais, não pode deixar nada barato.
A ambigüidade ou a imprecisão das instâncias simbólicas lhe são intoleráveis, pois revelam a fragilidade e a falha nessas instâncias. A cadeia é conhecida: falta no Outro = falta no sujeito. Disto é que ele não quer saber, e para não saber disto segue respondendo (a uma pequena pontuação do analista, por exemplo) até que a ordem se restaure.
Quando um obsessivo se refere a um blefe, há que diferenciar entre o blefe que ele percebe e denuncia e o blefe que ele sustenta sem perceber. O blefe que o obsessivo denuncia é a inconsistência no Outro, que o faz sofrer ainda mais, quando ele a pressente refletida em si mesmo. Muito das tristes histórias de fracassos repetidos na vida profissional ou intelectual, por exemplo, advém desta manobra: ao ser posto à prova, o obsessivo prefere falhar ou mesmo desistir, convicto de que não sabe o suficiente. Assim, ao deter-se no umbral do que seria todo o saber do Outro, ele se impede de vir a saber que o outro não é todo… e que qualquer saber (isto é ainda pior!) está sempre a se (re)construir, inclusive com sua modesta colaboração.
"Assim não dá!", denuncia o obsessivo: “este mundo não é sério! Como é que eu posso acreditar numa instância superior, se ela precisa de mim para se sustentar?” Todo este esforço para não matar o pai, para não ter que separar o pai (real) da Lei (isto é, simbolizar o pai).
(...) Escrevi que o obsessivo denuncia o tempo todo o que ele julga ser um blefe no Outro, já que não pode admitir a inconsistência no simbólico como algo que é próprio da condição humana, nem a fragilidade da linguagem, nosso principal recurso para domesticar o real.
Além disto, existe o blefe da própria neurose obsessiva, do qual o sujeito neurótico não se dá conta. Sua preocupação com as regras, com as pequenas exigências da lei, com os compromissos, com a opinião do semelhante, etc, faz parecer que o obsessivo é o principal responsável pela sustentação do laço social. Isto é, provavelmente o que qualquer neurótico obsessivo diria de si próprio é que sem o esforço dele, o mundo não andaria nada bem. Que ele se martiriza (como isto é comum entre as mães e esposas obsessivas!) para que as coisas funcionem. Só que, por não admitir a morte do pai (ou a falta no Outro ou a simbolização da castração, ou como mais quiserem que isto se chame), o obsessivo nunca está onde se produz o laço social: no meio de seus semelhantes. O obsessivo é aquele que se coloca num lugar de exceção entre os irmãos, lugar que, para Freud, algum dia correspondeu ao queridinho da mamãe, aquele que já sabe o que é gozar além do permitido. Lugar que, a partir da escolha de neurose (e para isto mesmo a neurose é convocada), desloca-se de junto à mãe para o lado pai, fundamental para garanti-lo
contra a ameaça de uma psicose, caso fosse tomado como objeto do desejo materno. Assim, o obsessivo é, dentre os irmãos, aquele que se recusa a tapear o pai, o que tenta levar o pai a sério e denuncia os blefes criativos e vitais da fratria. O que não sabe brincar. O que está sempre sozinho, e tenta dar de ombros com desdém: "eu não preciso…". Mas como a relação apaixonada do obsessivo com o pai é carregada de ambivalência, em seu isolamento ele se vê torturado pelas violentas moções de transgressão que o perseguem, efeitos do desejo inconsciente, e que se manifestam aumentando a tortura aliadas a interdições igualmente violentas.
(...) Nostálgico do ser, na expressão de Joel Dör, por efeito do superinvestimento materno, o obsessivo aposta tudo na recuperação de seu lugar de exceção, agora junto ao pai, porta-voz da vontade paterna que ele confunde com a Lei. Deste lugar, acredita prescindir absolutamente do outro. Estou-me referindo ao outro com minúsculas mesmo, o semelhante, o que nos pode nomear, apelidar, designar, e, com isto, garantir a manutenção, pela vida, de alguma nitidez no conjunto das identificações, de modo a fornecer algum contorno ao vazio do ser. Apartado da fratria, quando o ser se revela cruelmente um blefe, o obsessivo já não encontra nada para colocar neste lugar. Longe do outro, longe dos jogos de faz-de-conta que jogamos consentidamente com o semelhante, longe dos pequenos e variados sinais do reconhecimento de nossa existência que o semelhante nos envia, o que podemos dizer de nós mesmos?
E de nada lhe valeria, antes de um longo e torturante percurso de análise, que o psicanalista lhe respondesse com um pouco de ironia: mas quanto ao ser ou não ser, meu caro, o que mais se pode fazer além de blefar?

Por Maria Rita Kehl.
Mais em: http://www.appoa.com.br/download/revista17.pdf página 79.

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