Colette Soler em "O que Lacan dizia das Mulheres".
"Se amar é confessar a própria falta e prover a amada do que ela não
tem, é concebível que o amor possa provocar, especialmente no homem,
algo assim como uma defesa, uma espécie de protesto viril contra o amor.
(...) 'Fiar-se nela' não se situa no nível do ter, mas no nível do ser:
confiar em sua própria mulher é acreditar que
o que ela profere não fala apenas dela, mas do sujeito. É claro que
existe a fala amorosa, cujo manejo delicado a mulher supostamente detém,
e que embeleza aquele a quem é dirigida. Só que há também a fala da
verdade, a que nos interessa aqui e que é sempre outra coisa. A fala da
verdade nunca é uma fala amorosa - o que não significa que o amor não
seja verdadeiro; pode sê-lo, mas, quando o sujeito diz a verdade,
constata-se que o amor mentia. Não será essa uma das múltiplas razões
pelas quais as mulheres são tão acusadas de mentir? Nelas, que manejam
preferencialmente a fala amorosa, quando surge a fala da verdade,
evidencia-se o engodo. A língua traz o vestígio de que verdade e amor
não combinam muito bem: "dizer umas verdades a alguém". Isso tem uma
enorme relações com uma mensagem de castração. Assemelha-se muito de
perto ao que Schreber escuta de suas vozes: 'você não é homem!, não o
bastante! Resultado: fiar-se numa mulher é não apenas instalá-la no
lugar de um supereu feroz, mas é também colocá-la em competição com a
articulação inconsciente. Muitas coisas se deduzem daí e, para começar,
que uma mulher em quem se confia não é um sintoma fácil de analisar - o
fiar-se nela dispensa o sujeito, com muita facilidade, do trabalho
transferencial! Deduz-se também que a vigilância exercida por algumas
mulheres sobre a análise de seu homem tem lá sua lógica; e ainda os
estranhos silêncios às vezes observados nos depoimentos dos passantes a
propósito de uma mulher que evidentemente tem importância, e da qual
nada é dito até o fim.
Então, que dizer da identificação com o
sintoma quando o sintoma é uma mulher? A questão da incidência da
análise consumada no casal homem-mulher entra em jogo aí. Seria muito
simples tomarmos como referência o 'não existe relação sexual', para com
isso construir o destino de um vago 'isso não funciona nunca', mas a
análise procura dizer não só o porquê, que vale para todos, mas também o
como, próprio de cada um. Identificar-se com o sintoma, nesse caso como
em qualquer outro, é parar de se fiar nele e, depois de reduzi-lo ao
indecifrável, pôr uma suspensão definitiva na questão que ele suscitava.
Para uma mulher, isso corresponde a parar de se perguntar 'por que
ela?'. Percebe-se o benefício em relação à dúvida do neurótico. Isso não
a rejeita forçosamente de seu lugar, mas faz a escolha do sujeito
passar para a certeza e... o silêncio. Quem perde com isso? O amor, com
certeza, deixará suas reticências e será menos falastrão, mas não
necessariamente menos real. Por outro lado, o discurso amoroso sofrerá
uma perda, não há a menor dúvida!.
Um amor ateu, talvez, separado da
fala. Pois, no que concerne ao fiar-se, é certo que o trabalho da
análise promove sua queda. Ele só pode efetuar uma separação do oráculo
da fala Outra. As pessoas inquietam com os efeitos, é sabido. Mas,
porventura isso significa que, ao deixar de tomá-la pelo Outro, o
sujeito substituirá isso por um desenvolto 'pode dizer o que quiser'?
Talvez haja isso, mas não será necessariamente para pior, porque,
afinal, não é preciso estar separado da fala do Outro para poder ouvir a
diferença?"
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