sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O amor em análise, por

Colette Soler em "O que Lacan dizia das Mulheres".

"Se amar é confessar a própria falta e prover a amada do que ela não tem, é concebível que o amor possa provocar, especialmente no homem, algo assim como uma defesa, uma espécie de protesto viril contra o amor. (...) 'Fiar-se nela' não se situa no nível do ter, mas no nível do ser: confiar em sua própria mulher é acreditar que o que ela profere não fala apenas dela, mas do sujeito. É claro que existe a fala amorosa, cujo manejo delicado a mulher supostamente detém, e que embeleza aquele a quem é dirigida. Só que há também a fala da verdade, a que nos interessa aqui e que é sempre outra coisa. A fala da verdade nunca é uma fala amorosa - o que não significa que o amor não seja verdadeiro; pode sê-lo, mas, quando o sujeito diz a verdade, constata-se que o amor mentia. Não será essa uma das múltiplas razões pelas quais as mulheres são tão acusadas de mentir? Nelas, que manejam preferencialmente a fala amorosa, quando surge a fala da verdade, evidencia-se o engodo. A língua traz o vestígio de que verdade e amor não combinam muito bem: "dizer umas verdades a alguém". Isso tem uma enorme relações com uma mensagem de castração. Assemelha-se muito de perto ao que Schreber escuta de suas vozes: 'você não é homem!, não o bastante! Resultado: fiar-se numa mulher é não apenas instalá-la no lugar de um supereu feroz, mas é também colocá-la em competição com a articulação inconsciente. Muitas coisas se deduzem daí e, para começar, que uma mulher em quem se confia não é um sintoma fácil de analisar - o fiar-se nela dispensa o sujeito, com muita facilidade, do trabalho transferencial! Deduz-se também que a vigilância exercida por algumas mulheres sobre a análise de seu homem tem lá sua lógica; e ainda os estranhos silêncios às vezes observados nos depoimentos dos passantes a propósito de uma mulher que evidentemente tem importância, e da qual nada é dito até o fim.
Então, que dizer da identificação com o sintoma quando o sintoma é uma mulher? A questão da incidência da análise consumada no casal homem-mulher entra em jogo aí. Seria muito simples tomarmos como referência o 'não existe relação sexual', para com isso construir o destino de um vago 'isso não funciona nunca', mas a análise procura dizer não só o porquê, que vale para todos, mas também o como, próprio de cada um. Identificar-se com o sintoma, nesse caso como em qualquer outro, é parar de se fiar nele e, depois de reduzi-lo ao indecifrável, pôr uma suspensão definitiva na questão que ele suscitava. Para uma mulher, isso corresponde a parar de se perguntar 'por que ela?'. Percebe-se o benefício em relação à dúvida do neurótico. Isso não a rejeita forçosamente de seu lugar, mas faz a escolha do sujeito passar para a certeza e... o silêncio. Quem perde com isso? O amor, com certeza, deixará suas reticências e será menos falastrão, mas não necessariamente menos real. Por outro lado, o discurso amoroso sofrerá uma perda, não há a menor dúvida!.
Um amor ateu, talvez, separado da fala. Pois, no que concerne ao fiar-se, é certo que o trabalho da análise promove sua queda. Ele só pode efetuar uma separação do oráculo da fala Outra. As pessoas inquietam com os efeitos, é sabido. Mas, porventura isso significa que, ao deixar de tomá-la pelo Outro, o sujeito substituirá isso por um desenvolto 'pode dizer o que quiser'? Talvez haja isso, mas não será necessariamente para pior, porque, afinal, não é preciso estar separado da fala do Outro para poder ouvir a diferença?"

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