O
desejo de posse não é mais que uma outra forma do desejo de durar; é ele
que constitui o delírio impotente do amor. Nenhum ser, nem mesmo o mais
amado, e que nos ama com maior paixão, jamais fica em nosso poder. Na
terra cruel em que os amantes às vezes morrem separados e nascem sempre
divididos, a posse total de um ser, a comunhão absoluta por toda uma
vida é uma exigência impossível. O desejo de
posse é a tal ponto insaciável que ele pode sobreviver ao próprio amor.
Amar, então, é esterilizar a pessoa amada. O vergonhoso sofrimento do
amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado,
mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância,
todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja
aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira
revolta. Aqueles que não exigiram, pelo menos uma vez, a virgindade
absoluta dos seres e do mundo, que não tremeram de nostalgia e de
impotência diante de sua impossibilidade, aqueles que, então,
perpetuamente remetidos a sua nostalgia pelo absoluto, não se destruíram
ao tentar amar pela metade, não podem compreender a realidade da
revolta e seu furor de destruição. Mas os seres escapam sempre e nós
lhes escapamos também; eles não têm contornos bem-delineados. A vida,
deste ponto de vista, é sem estilo. Ela não é senão um movimento em
busca de sua forma sem nunca encontrá-la. O homem, assim dilacerado,
persegue em vão essa forma que lhe daria os limites entre os quais ele
seria soberano. Que uma única coisa viva tenha sua forma neste mundo, e
ele estará reconciliado!
Albert Camus - O homem revoltado
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