sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
O Real e a Fantasia
"Mais além da casa, mais além do corpo, isto é, mais além do sexual, surge o não sexual, o real, o não-senso radical: lugar de das Ding, a Coisa que não tem palavra nem imagem para designá-la. Essas telas parecem sugerir: mais além do sexual, o real; ou, mais além da realidade colocada pela fantasia - a realidade constituída por uma trama simbólico-imaginária -, o real. (...)
Hopper nos permite retomar nossa ideia de que a obra de arte é uma construção imaginária que, de dentro do mundo simbólico, indica o real fundante da estrutura psíquica (...) o real é indicado pelo olhar dos personagens que, de dentro do mundo simbólico, se dirige insistentemente a essa região que permanece fora do campo do visível, inacessível à visão do espectador.
(...) estes personagens estão como que congelados nesse encontro com o real e lhes falta um segundo tempo no qual poderiam se voltar ainda para o mundo simbólico, mas atravessados por esse real situado mais além da fantasia. Ali, eles poderiam retomar a via do desejo sem restringí-lo ao suporte da fantasia. Esses personagens, aos quais falta alegria, leveza (essa posição na qual o real mortífero exerce uma atração absoluta sobre o olhar é a posição do sujeito melancólico), ressaltou igualmente Jean Charmoille, parecem ter chegado ao limite entre o simbólico e o real, mas eles sofrem de uma injunção superegóica que lhes enuncia: "Vocês chegaram até aqui, então aqui permanecerão!" Como se uma verdadeira punição vinda do supereu arcaico lhes fizesse pagar caro por essa audácia de transpor os limites da janela constituída pela realidade fantasística e se situar em face do real, desvelando o logro da estrutura que nos constitui."
(Marco A. Coutinho, A clínica da fantasia, p.252)
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