Bauman, Amor Líquido
"Em sua versão ortodoxa, o desejo precisa ser cultivado e preparado, o
que envolve cuidados demorados, a árdua barganha com conseqüências
inevitáveis, algumas escolhas difíceis e concessões dolorosas. Mas, pior
que tudo, impõe que se retarde a satisfação, sem dúvida o sacrifício
mais detestado em nosso mundo de velocidade e aceleração. Em sua
reencarnação radical, aguçada e sobretudo
compacta como impulso, o desejo perdeu a maior parte de tais atributos
protelatórios, enquanto focalizava mais de perto o seu alvo. Tal como
nos comerciais que anunciavam o surgimento dos cartões de crédito, agora
não
precisamos esperar para satisfazer nossos desejos.
Guiada pelo impulso ("seus olhos se cruzam na sala lotada"), a parceria
segue o padrão do shopping e não exige mais que as habilidades de um
consumidor médio, moderadamente experiente. Tal como outros bens de
consumo, ela deve ser consumida instantaneamente (não requer maiores
treinamentos nem uma preparação prolongada) e usada uma só vez, "sem
preconceito" É, antes de mais nada, eminentemente descartável.
Consideradas defeituosas ou não "plenamente satisfatórias", as
mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que
agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e
que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas,
ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam
em uso por muito tempo. Afinal, automóveis, computadores ou telefones
celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de
funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte
de lixo no instante em que "novas e aperfeiçoadas versões" aparecem nas
lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as
parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?"
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