sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"Ah, se apenas se soubesse!"

 Se o capitalista soubesse que ele explora uma certa classe social! Se o padre soubesse que ele prega aos homens, não o amor, mas a vingança! Se o neurótico soubesse que ele não se perdoa por tal desejo incestuoso! Mas eis que: eles não sabem. Digamo-lhes pois sua verdade: eles saberão. E de fato ela foi dita, notadamente desde uma vintena de anos. Ora, nenhuma mudança se produziu, nem na luta de classes, nem na evolução das idéias religiosas, nem nas manifestações do interdito sexual. Que se passou então? Eles não compreenderam? Sim, mas aparentemente sem benefício. Se eles não mudaram, é que não lhes foi ensinado nada: tudo o que lhes foi dito, eles já sabiam. Era preciso ensiná-los a falar. Isto, um ou outro psicanalista conseguiu com um ou outro paciente. Mas o discurso antiideológico é, propriamente, sem poder. E precisamente: porque ele próprio é ideológico. Ideológico, porque se forja uma concepção superficial, otimista e racionalizante da ideologia: porque crê, assim como todos os idéologos dos quais zombou Marx, na onipotência, na oniverdade das idéias. (...)
Porque ele não faz distinção entre o inconsciente e o infalado, e daí supõe que basta conceder a idéia a alguém para, a um só tempo, dar-lhe a palavra." 


(Clément Rosset, A Lógica do Pior, p.37)

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