Se o capitalista soubesse que ele explora uma
certa classe social! Se o padre soubesse que ele prega aos homens, não o
amor, mas a vingança! Se o neurótico soubesse que ele não se perdoa por
tal desejo incestuoso! Mas eis que: eles não sabem. Digamo-lhes pois
sua verdade: eles saberão. E de fato ela foi dita, notadamente desde uma
vintena de anos. Ora, nenhuma mudança
se produziu, nem na luta de classes, nem na evolução das idéias
religiosas, nem nas manifestações do interdito sexual. Que se passou
então? Eles não compreenderam? Sim, mas aparentemente sem benefício. Se
eles não mudaram, é que não lhes foi ensinado nada: tudo o que lhes foi
dito, eles já sabiam. Era preciso ensiná-los a falar. Isto, um ou outro
psicanalista conseguiu com um ou outro paciente. Mas o discurso
antiideológico é, propriamente, sem poder. E precisamente: porque ele
próprio é ideológico. Ideológico, porque se forja uma concepção
superficial, otimista e racionalizante da ideologia: porque crê, assim
como todos os idéologos dos quais zombou Marx, na onipotência, na
oniverdade das idéias. (...)
Porque ele não faz distinção entre o
inconsciente e o infalado, e daí supõe que basta conceder a idéia a
alguém para, a um só tempo, dar-lhe a palavra."
(Clément Rosset, A
Lógica do Pior, p.37)
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