sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
A histérica e a feminilidade,
por Serge André, em O que quer uma mulher?
A histérica jamais se sente revestida o bastante por sua imagem corporal, como se essa vestimenta imaginária ameaçasse sempre se entreabrir para a realidade repulsiva de um corpo que ela não pode reconhecer como tal. É quando a carne aponta sob o vestido, sob a maquilagem ou sob a máscara da sedução que a histérica se vê suja, feia, repugnante, reduzida ao estado de vianda. (...)
Se se produz uma falta ao nível da constituição da imagem corporal, uma falta correspondente deve ser situada ao nível da identificação simbólica fornecida pela instância paterna. (...) É da mensagem do Outro que depende, de fato, a constituição dessa imagem corporal, na medida em que ele pode validá-la ou anulá-la quando a criança busca sua aprovação. (...) É ao nível do Outro, em consequência, que devemos procurar o ponto de origem de onde decorre a série desordenada da problemática histérica. Qual é, pois, esta falha do Outro que formaria o ponto de partida da histeria? Basta deixar falar a histérica para aprendê-lo: Anna O., Lucy R., Elisabeth von R., Dora, todas nos dizem à sua maneira que encontraram em seu pai uma falha fundamental - doença, impotência, falta de caráter... (...) Toda a clínica da histeria gira em torno deste ponto de umbigo: o falo que a histérica encontrou em seu pai - no Pai em geral - é sempre insuficiente: o pai da histérica é estruturalmente um impotente. Mas impotente para quê? A demanda da histérica se revela aqui em sua dimensão de questionamento da feminilidade. Se o pai é estruturalmente impotente, é de fato porque ele não lhe pode dar o apoio com que ela conta para assentar sua identidade feminina. A insígnia paterna só indica o falo, só sugere identificação fálica. O que se põe em causa a partir de então, na demanda da histérica ao pai é uma falta absolutamente radical: mais que um fracasso do recalque, é uma verdadeira impossibilidade de recalcar que é designada. Pois o representante que deveria ser recalcado falta, pura e simplesmente: não há no Outro, como Lacan vai desenvolver magistralmente, significante do sexo feminino como tal.
Essa falta de apoio para uma identificação especificamente feminina - quer dizer, outra que não a fálica - faz com que a imagem corporal, numa mulher, não possa revestir e erotizar completamente o real do corpo - a não ser que ela se faça "toda fálica", que ela "se faça homem", o que não significa que assuma uma aparência masculina, mas que aborde a sexualidade à maneira do homem, na ostentação fálica. Mas qual é este real onde fica abandonada a parte propriamente feminina da feminilidade? Nenhuma resposta positiva pode resolver esta questão, pois que se trataria de nomear um não representável. No entanto, a histérica justamente tem a convicção de possuir a resposta: o que ela diz, com efeito, é que, privada de uma identificação propriamente feminina, só se pode ver reduzida ao estatuto abjeto de objeto de consumo entre à perversão do macho. Sente-se, em suma, aprisionada pela fantasia masculina, identificando a esta todo o comportamento sexual. (...) Doente pela falta do Outro, a histérica vai realmente se devotar a repará-la, chegando por vezes ao sacrifício de sua vida pessoal, especialmente de toda a vida amorosa. Sustentáculo do pai, madona dos inválidos, a histérica se consagra a uma esperança: menos a de receber, enfim, o falo do pai - como Freud acreditou e tematizou na "inveja do pênis" - do que a de obter, precisamente, outra coisa que não o falo: um signo que a funde numa feminilidade enfim reconhecida.
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