sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O amódio

Quando Lacan inventa o neologismo "amódio" e afirma que "o verdadeiro amor desemboca no ódio", e ainda, que "não conhecer de modo algum o ódio é não conhecer de modo algum o amor também", é para frisar que se o amor colmata uma falha, o ódio a escancara: ao perder o objeto amado, o sujeito sofre não tanto pela perda do objeto, mas pelo fato de ter que vir a se defrontar - novamente - com a falta originária de objeto, que era tão prazerosamente escamoteada pelo objeto amoroso. O ódio advém como a revelação fulminante de uma falta que não pode ser preenchida e que, ilusoriamente, o objeto amoroso parecia tamponar - logo, o ódio advém pela percepção violenta, intrusiva, da ilusão inerente ao objeto amoroso. "Como um amor como esse pode ter fim?", pergunta-se o sujeito, boquiaberto, defrontando-se com a impotência daquilo que significa para ele sua arma mais poderosa - seu amor. O objeto é odiado por ter forçado o sujeito a se deparar com algo do qual precisamente ele mais se afasta - o não sentido inerente à relação sexual, isto é, sua impossibilidade.

Marco Antonio Coutinho Jorge.
A clínica da fantasia.

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