Quando
Lacan inventa o neologismo "amódio" e afirma que "o verdadeiro amor
desemboca no ódio", e ainda, que "não conhecer de modo algum o ódio é
não conhecer de modo algum o amor também", é para frisar que se o amor
colmata uma falha, o ódio a escancara: ao perder o objeto amado, o
sujeito sofre não tanto pela perda do objeto, mas pelo fato de ter que
vir a se defrontar - novamente - com a
falta originária de objeto, que era tão prazerosamente escamoteada pelo
objeto amoroso. O ódio advém como a revelação fulminante de uma falta
que não pode ser preenchida e que, ilusoriamente, o objeto amoroso
parecia tamponar - logo, o ódio advém pela percepção violenta,
intrusiva, da ilusão inerente ao objeto amoroso. "Como um amor como esse
pode ter fim?", pergunta-se o sujeito, boquiaberto, defrontando-se com a
impotência daquilo que significa para ele sua arma mais poderosa - seu
amor. O objeto é odiado por ter forçado o sujeito a se deparar com algo
do qual precisamente ele mais se afasta - o não sentido inerente à
relação sexual, isto é, sua impossibilidade.
Marco Antonio Coutinho Jorge.
A clínica da fantasia.
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