sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Do Santo ao Cínico


O homem profanou as coisas que nascem e morrem sob o sol, salvo o sol, as coisas que nascem e morrem na esperança, salva a esperança. Não tendo ousado ir mais longe, pôs limites a seu cinismo. É que um cínico, que se pretende consequente, só o é em palavras; seus gestos fazem dele o ser mais contraditório: ninguém poderia viver depois de haver dizimado suas superstições. Para chegar ao cinismo total, seria preciso um esforço inverso ao da santidade e ao menos igualmente considerável; ou, então, imaginar um santo que, chegado ao cume de sua purificação, descobrisse a vaidade do trabalho a que se dedicara- e o ridículo de Deus.
Tal monstro de clarividência mudaria as coordenadas da vida: teria força e autoridade para pôr em questão as condições mesmas de sua existência; já não correria o risco de contradizer-se; nenhum desfalecimento humano debilitaria mais suas ousadias; havendo perdido o respeito religioso que tributamos, involuntariamente, a nossas últimas ilusões, zombaria de seu coração e do sol...

(Cioran, Breviário da Decomposição)

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