segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pais e filhos 2

Vai se querer suspender, para a criança, todas as misérias que a educação lhe faz, vai se querer que ela tenha a melhor vida, a mais doce, que ela cumpra os sonhos de desejo, que ela case com o príncipe, que ele se torne o herói etc. Tudo isso é muito bonito, só que esse amor dos pais preside, vemos isso na experiência, a atitudes muito opostas neles. Querer proteger a criança da infelicidade e, depois, também, impô-la. Como explicar? É muito simples: é que toda criança - o bebê, o chorão internacional - que não fala, evidentemente, se presta a ser o objeto de projeções positivas do narcisismo dos pais. Em seguida, porém, quando ela cresce (porque é preciso que ela - a infeliz - cresça, é preciso que ela entre necessariamente no discurso), os pais são chamados para a tarefa de fazê-lo entrar nas prescrições do discurso; então, o que se faz pesar, o que o Outro faz pesar sobre seus ombros, são os ideais dos pais. É aí que o amor se torna feroz. Esse amor tão comovedor dos pais, e tão infantil, é ao mesmo tempo o próprio princípio da alienação da criança, da exigência alienante a respeito da criança.

Colette Soler - Declinações da angústia

A Mulher não existe

A consequência das mulheres não formarem um conjunto é que elas só existem no singular, no uma a uma. Os homens podem encontrar uma e umas - há muitas delas, mas não podem encontrar "A Mulher" porque essa não existe (já que nenhum significante a define como tal). Nessa série, uma, depois uma outra, depois outra ainda, os homens buscam, ao contrário do que se esperaria, a conformidade do mesmo.
As mulheres, por não poderem ser "A Mulher", buscam, com frequência, ser "uma mulher" eleita de um homem. As histéricas, por outro lado, quando se posicionam como exceção são muitas vezes movidas mais por uma identificação masculina do que uma feminina. É mais tranquilizador para as histéricas se identificarem com o homem do que ter de confrontar-se com a indeterminação de seu ser feminino, uma condição que as deixam desconfortáveis.

Malvine Zalcberg - Amor paixão feminina

A busca de segurança

Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o contrário: é uma dor de cabeça, não um remédio. Na medida em que os relacionamentos são vistos como investimentos, como garantias de segurança e solução de seus problemas, eles parecem um jogo de cara-ou-coroa. A solidão produz insegurança — mas o relacionamento não parece fazer outra coisa. Numa relação, você pode sentir-se tão inseguro quanto sem ela, ou até pior. Só mudam os nomes que você dá à ansiedade.

Zygmunt Bauman - Amor Líquido

Pais e filhos

O sistema de relações que intervém com relação ao filho (e que denominamos falo), cria uma distribuição de lugares em relação ao narcisismo. Sabemos que toda escolha de objeto não é outra coisa que não um resíduo da escolha narcisista e, portanto, se os pais vêem no filho um objeto de preenchimento é em função daquela "outra cena" formada pelo próprio narcisismo. Em tudo isto, o filho não é ele... É o que "se gostaria de ser", "o que se foi"... E para concluir, vê-se que no centro do interesse parental não está a criança. Está o narcisismo.

Antonio Godino Cabas - A função do falo na loucura

A Vida de David Gale

Cena do filme A Vida de David Gale e, abaixo, artigo de C. Dunker sobre o mesmo.






http://revistas.pucsp.br/index.php/leituraflutuante/article/view/7629

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Beijo de Klimt



Ao contrário do que se repete, essa tela não parece ter a ver com a consumação amorosa de dois apaixonados.

Reparem que ela o abraça, mas com os dedos fechados.
Ele a beija, mas ela vira o rosto enquanto sua mão esquerda gentilmente afasta a mão masculina.
Isto é, ela o aceita...mas não se entrega.
Se por um lado essa recusa deve incitar o desejo masculino, por outro a pergunta sobre "o que quer esta mulher?" se impõe.
Por fim, há um imenso abismo atrás deles e os pés prestes a ceder dão a entender que há perigo no se entregar.

É, enfim, um quadro bem angustiante e histérico.

( Tiago Macedo )

Do Santo ao Cínico


O homem profanou as coisas que nascem e morrem sob o sol, salvo o sol, as coisas que nascem e morrem na esperança, salva a esperança. Não tendo ousado ir mais longe, pôs limites a seu cinismo. É que um cínico, que se pretende consequente, só o é em palavras; seus gestos fazem dele o ser mais contraditório: ninguém poderia viver depois de haver dizimado suas superstições. Para chegar ao cinismo total, seria preciso um esforço inverso ao da santidade e ao menos igualmente considerável; ou, então, imaginar um santo que, chegado ao cume de sua purificação, descobrisse a vaidade do trabalho a que se dedicara- e o ridículo de Deus.
Tal monstro de clarividência mudaria as coordenadas da vida: teria força e autoridade para pôr em questão as condições mesmas de sua existência; já não correria o risco de contradizer-se; nenhum desfalecimento humano debilitaria mais suas ousadias; havendo perdido o respeito religioso que tributamos, involuntariamente, a nossas últimas ilusões, zombaria de seu coração e do sol...

(Cioran, Breviário da Decomposição)

Papai Noel e o sujeito suposto crer


Segundo uma anedota antropológica muito conhecida, os primitivos a quem certas crenças supersticiosas foram atribuídas (por exemplo que eles descendiam de um peixe ou de uma ave), quando perguntados diretamente sobre essas crenças, responderam: "Claro que não - não sou tão bobo assim! Mas me contaram que alguns de nossos ancestrais realmente acreditavam que ...". Em suma, transferiam sua crença para outrem. Não estamos fazendo o mesmo com nossos filhos? Submetemo-nos ao ritual do Papai Noel, visto que nossos filhos (supostamente) acreditam nele e não queremos desapontá-los; eles fingem que acreditam para não nos desapontar em nossa crença na ingenuidade deles (e para ganhar presentes, é claro). Não é essa necessidade de encontrar um outro que "realmente acredita" que também nos impele em nossa necessidade de estigmatizar o outro como um fundamentalista religioso ou étnico? De um modo estranho, algumas crenças sempre parecem funcionar a uma certa distância: para que ela funcione, precisa haver um fiador supremo dela, algum crente verdadeiro, mas esse fiador é sempre adiado, deslocado, nunca presente em pessoa. O que importa, é claro, é que, para que a crença seja operativa, o sujeito que acredita diretamente não precisa existir em absoluto; basta precisamente pressupor sua existência, acreditar nela, seja na forma da figura fundadora mitológica que não é parte de nossa realidade, ou na forma do ator impessoal, o agente não especificado: "Dizem que ... ", "Diz-se que ... "
Talvez seja por isso que "cultura" surge hoje como a categoria central do mundo/vida. Com relação à religião, não mais "acreditamos realmente", apenas seguimos (variados) rituais e comportamentos como parte de um respeito pelo "estilo de vida" da comunidade a que pertencemos. "Não acredito realmente nisso, é apenas parte de minha cultura" parece ser o modo predominante da crença deslocada, característico de nosso tempo. "Cultura" é o nome para todas essas coisas que praticamos sem de fato acreditar nelas, sem levá-las inteiramente a sério. É por isso que rejeitamos crentes fundamentalistas como "bárbaros", como anticulturais, como uma ameaça à cultura - eles ousam levar suas crenças a sério.

Slavoj Zizek - Como ler Lacan

Feminismo e amor cortês

Desse modo, apoiadas na crença das palavras do amor cortês, as mulheres empreenderam uma luta contra as tradições da família patriarcal, que determinava as regras dos laços de casamento. A gênese do feminismo tomou, assim, como ponto de mira o desafio à autoridade paterna, àquele que era concebido como o juiz que ordenava a linha do destino das mulheres. Podemos supor, dessa maneira, que o grande motor do feminismo foi impulsionado pela aposta nas promessas do amor cortês, instituindo com suas ganas o declínio da imago paterna na civilização.

Oh! Lindo e esplendoroso amor, em que o cavalheiro servil se curvava extasiado diante de sua deusa: A Mulher impossível!
Porém, com o advento do feminismo, no qual A Mulher quis engendrar-se como possível, imediatamente esse lindo amor começou a desaparecer, pois à medida que as mulheres passaram a falar em resposta ao apelo apaixonado do seu amante, a desgraça começou a se abater sobre a virilidade dos homens, reduzindo suas promessas de amor eterno ao ridículo de meras falácias, instituindo a derrocada do viril.

http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_5/O_parceiro_amoroso_da_mulher_atual.pdf

Sobre o amor

Entrevista com Jacques-Alain Miller, realizada por Hanna Waar.


P.: Então, o que é amar verdadeiramente?
J-A Miller:
Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".
P.: Por que alguns sabem amar e outros não?
J-A Miller:
Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem serem completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...
J-A Miller:
Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
P.:Amar seria mais difícil para os homens?
J-A Miller:
Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, afim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

O amor de transferência


Sempre que numa relação terapêutica se institui a dialética em que um fala e um outro ouve e interpreta, o amor se faz presente. O que comporta a ideia de que cada um ama em função do que supõe que o outro sabe do que ele ignora sobre si mesmo, na medida em que sempre se é um mistério para si mesmo; donde reside a questão aberta do amor dos analisandos pelo seu analista a quem supõe um saber. No fundamento da transferência em psicanálise há a conjugação do amor com a palavra e o saber este, não mais que suposto.

Malvine Zalcberg - Amor paixão feminina

A travessia da fantasia e a destituição subjetiva



A travessia da fantasia corresponde à destituição subjetiva pois significa essencialmente ir para além dela, para que o sujeito se reconheça num "sou" conectado ao objeto. É da fantasia que o sujeito tira a segurança do que fazer diante das situações que a vida lhe apresenta. A análise, ao levar o sujeito a atravessá-la, promove um abalo e uma modificação nas relações do sujeito com a realidade, levando-o a uma zona de incerteza, pois ele é largado pela âncora da fantasia, liberado das amarradas das identificações que mapeavam sua realidade.
"Sou essa voz da garganta afônica do Outro; essa merda ejetada por seu furo; esse objeto a devorar por sua boca; esse olhar penetrante a me fuzilar". Revelação de um ser em contraposição ao sujeito que, ao obedecer ao "diga tudo" da regra fundamental, só aparece como falta de ser aquilo tudo que é dito. A partir dessa experiência de ser, o sujeito poderá esvaziar esse objeto do gozo do Outro que lhe sustenta a fantasia. Com essa operação de esvaziamento de gozo, o sujeito pode saber-se um rebotalho e lidar com seu ser de objeto para dele poder se separar. Esse objeto, uma vez separado, decaído, "perde todo privilégio e literalmente deixa o sujeito sozinho". Trata-se aqui de uma dessubstantificação do objeto onde o que conta "não é o próprio objeto, mas a função desse objeto em sua relação com a divisão do sujeito".
O que está em jogo na travessia da fantasia no final da análise é a perda do ser de toda sua substância de objeto. O fim de análise deve permitir ao sujeito renunciar ao que lhe dava a impressão em sua fantasia de lhe oferecer esse complemento de ser.

Antonio Quinet - As 4+1 condições da análise

A devastação e o gozo Outro



A devastação não é a inveja do pênis. A devastação me parece estar fora do falicismo, que é ordenado pelos signos da linguagem; a devastação em si é seu sentido semântico, refere-se à abolição das referências. A devastação vai junto com a desorientação, o apagamento dos traços e edifícios significantes, é muito mais radical que a inveja do pênis. O sujeito da inveja do pênis, eu diria isso, jamais perde sua bússola. Sua bússola é a aritmética do ter e as angústias que vão junto, certamente, mas não é um sujeito desbussolado, é um sujeito preso à bússola fálica.
A devastação refere-se ao gozo Outro, gozo que desestabiliza o sujeito, aniquila-o por um instante e o desestabiliza nas suas sequências, mais ou menos. É um gozo que abala os seus alicerces identificatórios. O gozo Outro em si mesmo devasta o sujeito, devasta-o no sentido preciso de subtraí-lo de suas referências subjetivas.

Colette Soler - Declinações da angústia

Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.



A desumanização é tão dolorosa como perder tudo, meu amor. Eu abria e fechava a boca para pedir socorro mas não podia nem sabia articular. É que eu não tinha mais o que articular. Minha agonia era como a de querer falar antes de morrer. Eu sabia que estava me despedindo para sempre de alguma coisa, alguma coisa ia morrer, e eu queria articular a palavra que pelo menos resumisse aquilo que morria. Afinal, consegui pelo menos articular um pensamento: "estou pedindo socorro". Ocorreu-me então que eu não tinha contra o que pedir socorro. Eu não tinha nada a pedir. De repente era isso. Eu estava entendendo que "pedir" eram ainda os últimos restos de um mundo apelável que, mais e mais, se estava tornando remoto. ... Cada vez mais eu não tinha o que pedir.
O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.

Sigmund Freud - Análise terminável e interminável



Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões impossíveis quanto às quais de antemão se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito tempo, são a educação e o governo. Evidentemente, não podemos exigir que o analista em perspectiva seja um ser perfeito antes que assuma a análise, ou, em outras palavras, que somente pessoas de alta e rara perfeição ingressem na profissão. Mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais de que necessitará sua profissão? A resposta é: na própria análise, com a qual começa sua preparação para a futura atividade.

O corte da sessão

A suspensão da sessão, realizada pelo analista em seu ato, é uma maneira de "fazer-de-conta" de objeto a. É por ter rodado e rodado por seus significantes em busca daquele que lhe diria o que é sem tê-lo encontrado, que o analisante poderá buscar a certeza no outro pólo da estrutura - que é esse objeto - onde se encontra a designação de seu ser como objeto tal como está explicitado em sua fantasia.
É somente após esta passagem - momento de passe na análise - de se experimentar como objeto que, no momento de concluir, o analisante vira analista. É por ter feito essa passagem em sua análise que o analista poderá dirigir as análises de seus analisantes para esse ponto fora do significante.
O paradoxo da psicanálise consiste em chegar a esse ser pela via da linguagem: ele é o que resta do processo como impossível de ser dito.
O corte da sessão, ao equivaler-se ao corte da cadeia de significantes, faz surgir, portanto, a dimensão desse intervalo entre os significantes, constituindo essa suspensão da sessão em uma escansão - no próprio sentido de sublinhar, acentuar, frisar - não do significante, e sim de seu intervalo, apontando para o não-sentido e para a falta no Outro, lá onde pode presentificar-se o objeto como referente.

Antonio Quinet - As 4+1 condições da análise

O despertar para o real

Ir mais além, "perto do coração selvagem" da vida, ver o essencial no mais banal, recusar as certezas em prol do espanto, não se deixar obscurecer pela trivialidade à qual o dia a dia convida incessantemente, pressentir o mistério onde o óbvio parece se estampar, desejar algo a mais quando a satisfação se mostra aparentemente total, indagar os fatos cuja eloquência adquire o status da suficiência: em suma, desfazer o sentido onde ele se quer mais cabal, aspirar obtê-lo onde ele resiste opaco. Trata-se de uma verdadeira metodologia que se acha em jogo aqui: por um lado, aumentar o gradiente de enigma inerente ao visível, cuja legitimidade é questionada; por outro, dirigir-se a um horizonte inesperado pelo gozo da diferença mais radical.
(...) A experiência analítica visa, em última instância, ao despertar. Despertar do sono no qual o sujeito se achava mergulhado e que dava algum sentido à sua vida. Com ele, o sentido deverá ser reinventado, e a liberdade que então advém é congruente com uma radical entrega a tudo aquilo que porventura possa vir do real.

Marco Antonio Coutinho Jorge - A clínica da fantasia

A ideologia da luta de classes

Colette Soler
Declinações da angústia

A ideia de que o capitalismo visa à mais-valia não é para ser confundida com a ideia de que o capitalista seja um gozador. A mais-valia subtraída do proletário é, de fato, reinvestida no regime capitalista; ela não é consumida nem poupada. É o primeiro ponto: capitalismo, cultura da falta-de-gozar.
O segundo ponto é muito mais importante, e é uma interpretação da função da ideologia da luta de classes. Ela consiste em dizer que Marx, com isso, reforçou o discurso capitalista. Bem longe de colocá-lo em perigo, ele o reforçou e Lacan chega até mesmo a dizer em algum lugar: torná-lo definitivo.
O que é que se passa na ideologia da luta de classes quando se desenvolve a famosa consciência proletária, isto é, a consciência de ser explorado? Na consciência proletária, a mais-valia torna-se o objeto que lhe é subtraído, digamos o equivalente do objeto perdido, o objeto que é mais que subtraído, o objeto que lhe é ocultado, portanto, que precisa ser recuperado - é essa a luta de classes. Assim sendo, logo que a mais-valia torna-se o objeto a ser recuperado para o explorado, também a mais-valia torna-se a causa do desejo: eis a leitura feita por Lacan.
Ele a formula em Radiofonia com uma frase: "a mais-valia, causa de desejo do qual uma economia faz seu princípio".
Em consequência disso, constatamos a participação patente dos explorados à sede da falta-de-gozar. Esta sede, esta avidez da falta-de-gozar. Sua tese é de que todos têm a mesma causa de desejo, a mais-valia. Conclusão: todos proletários!
Não se pode absolutamente, portanto, escrever o par capitalista-proletário como se escreve senhor-escravo. Pode-se apenas escrever capitalista e proletário - mesma causa de desejo.

O amódio

Quando Lacan inventa o neologismo "amódio" e afirma que "o verdadeiro amor desemboca no ódio", e ainda, que "não conhecer de modo algum o ódio é não conhecer de modo algum o amor também", é para frisar que se o amor colmata uma falha, o ódio a escancara: ao perder o objeto amado, o sujeito sofre não tanto pela perda do objeto, mas pelo fato de ter que vir a se defrontar - novamente - com a falta originária de objeto, que era tão prazerosamente escamoteada pelo objeto amoroso. O ódio advém como a revelação fulminante de uma falta que não pode ser preenchida e que, ilusoriamente, o objeto amoroso parecia tamponar - logo, o ódio advém pela percepção violenta, intrusiva, da ilusão inerente ao objeto amoroso. "Como um amor como esse pode ter fim?", pergunta-se o sujeito, boquiaberto, defrontando-se com a impotência daquilo que significa para ele sua arma mais poderosa - seu amor. O objeto é odiado por ter forçado o sujeito a se deparar com algo do qual precisamente ele mais se afasta - o não sentido inerente à relação sexual, isto é, sua impossibilidade.

Marco Antonio Coutinho Jorge.
A clínica da fantasia.

Fantasia fundamental

A fantasia fundamental, concebida por Lacan como "o que instaura o lugar onde o sujeito pode se fixar como desejo", pode ser considerada uma espécie de prisão domiciliar do sujeito: nela ele se encontra confortavelmente instalado, rodeado pelos objetos investidos por sua libido e pelos objetos que lhe são familiares, desfrutando de uma tranquilidade que beira a inércia - mas está preso! Em seu interior, ele segue uma vida regida pelo princípio de prazer, mas, sem se dar conta disso, encontra-se radicalmente limitado por tudo aquilo que é prazeroso. O sujeito só perceberá que se trata efetivamente de uma prisão ao fim da análise. Também é bastante comum ouvir-se no cotidiano alguém dizer: "Tudo o que eu quero é paz!". Analiticamente, é possível ouvir nesse pedido de paz o eco de outro pedido: "Não me tirem de meu conforto fantasístico".
A metáfora da prisão domiciliar é fecunda para tratar da fantasia: a prisão limita os movimentos do sujeito, dá um enquadramento restrito a eles, torna suas explorações no mundo pequenas e confinadas a determinadas regiões já conhecidas. Trata-se de uma redução brutal de sentido, constituído pela articulação simbólico-imaginária, para fazer face à falta de sentido do real. Como formula Lacan nessa mesma direção, "o próprio sujeito se reconhece ali como detido, ou, para lembra-lhes uma noção mais familiar, fixado".

Marco Antonio Coutinho Jorge - A clínica da fantasia

Homossexualidade

A castração é o segredo de todos os objetos de desejo, o que vemos especialmente no caso da jovem homossexual, que acaba dirigindo seu desejo para uma dama de mais idade. É precisamente por ela não ter o falo (é um ser castrado) que a jovem homossexual pode amá-la, identificando-se com a posição masculina. É como se a jovem homossexual tentasse mostrar ao pai que o mais importante num objeto de amor é o fato dele não ter. E que, em todo objeto, o importante não é sua propriedade positiva, mas sua falta. A tese fundamental de Lacan é que o desejo se dirige não tanto ao objeto, mas ao que falta nele, e é isso que anima o desejo e o amor. Conhecemos o perigo da relação da mulher com um homem que de nada necessita. Nesses casos, acontece da mulher preferir um outro que precise dela, embora seja inferior numa comparação.
Deve-se sempre preservar uma falta no relacionamento. Se Deus fosse tão perfeito, como diz a religião, não haveria razão para amá-lo. Qual seria a falta de Deus? É perfeito, onipotente, não necessita de nós. Por que Deus pede nosso amor? A resposta de Lacan é que Deus é perfeito, mas tem um defeito: não é certo que ele exista. Esta dúvida sustenta o crente em relação a Deus. Ele sabe que Deus necessita da fé para existir.

Jacques-Alain Miller
Lacan Elucidado

Fim de análise

Aconteceu assim. Lacan se perguntava o que seria o fim de uma análise, ou seja, como definir uma análise propriamente terminada. Sua resposta foi a seguinte: o fim de uma análise (diferentemente de uma interrupção) não é o esgotamento dos
assuntos, o sumiço dos sintomas, o fim das queixas ou coisa que o valha. O fim de uma análise propriamente dito seria uma experiência radical produzida pelo próprio processo analítico.
Pouco importa aqui examinar como Lacan entendia essa experiência e o processo que a ela levaria. Mas, descrita em termos psicológicos e muito simples (que ele teria detestado), seria a experiência de que não somos grande coisa e, em particular, não somos a única coisa que falta para que o mundo seja perfeito e para que a nossa mãe seja feliz. Isso parece (e é) uma coisa fácil de saber e mesmo de admitir, mas uma experiência efetiva dessa superfluidade de nossa existência é uma outra história. Nesse momento final, o sujeito vivenciaria, logicamente, uma espécie de desamparo depressivo, mas também uma extrema liberação. Por que liberação? Pois é, o que mais nos faz sofrer talvez seja justamente a relevância excessiva que atribuímos à nossa presença no mundo, pois essa relevância é a pedra de fundação de todas nossas obstinadas repetições, é graças a ela que insistimos em ser sempre “iguais a nós mesmos” (sendo que, no caso, essa expressão não tem um sentido positivo).
Há boas razões para se pensar que, uma vez essa experiência feita, a gente possa passar a viajar pela vida carregando malas um pouco mais leves. Ou seja, seríamos capazes de largar os sintomas que nos devastam e que, obviamente, adoramos a tal ponto que não conseguimos desistir deles. Em suma; essa experiência conclusiva teria um valor terapêutico.

Contardo Calligaris - Cartas a um jovem terapeuta

O Desejo e a Fantasia


(...) A conseqüência disso é que o objeto a, enquanto radicalmente perdido, é o objeto da fantasia que passa a sustentar o desejo. Para Lacan, o desejo é sempre sustentado pela fantasia. Se o desejo é, em sua essência, da ordem da falta, a fantasia é a estrutura que enquadra, emoldura esta falta num certo limite, numa certa “janela para o real”. Se o desejo é a falta enquanto tal, a fantasia é o que sustenta esta falta radical ao mesmo tempo em que indica ilusoriamente “o que falta”. Há falta, diz o desejo. É isso que falta, diz a fantasia.

Marco Antonio Coutinho Jorge - Arte e Travessia da Fantasia

Efeitos epistêmicos de final de análise


Jacques-Alain Miller - O Ser e o Um

Para Lacan, há efeitos epistêmicos que são adquiridos no final da análise.
O primeiro efeito epistêmico é um efeito de inquietação devido precisamente ao fato de a segurança do sujeito, propiciada pela fantasia que lhe fixa seu lugar em relação ao real, fantasia que lhe diz o que o real significa para ele, essa segurança, diz Lacan, é emborcada, ela escorre ao mesmo tempo em que é posta de pernas para o ar. É o momento em que o sujeito pode, de fato, perceber que as categorias significativas que organizaram seu mundo são tão somente de seu mundo próprio. (...)
Em segundo lugar, há um efeito de deflação do desejo. Para falar com propriedade, o desejo não apreende nenhum ser, o ser que suscita o desejo só deve o seu brilho, sua atração, da libido que nele investi. Lacan o expressa dizendo que a apreensão do desejo se revela como sendo apenas apreensão de um des-ser. O des-Ser é um não-ser que acreditávamos ser e que é destituído dessa qualidade. (...) O desinvestimento libidinal faz dele um des-ser e não resta senão uma essência evanescente, ou seja, uma significação que se dissipa e que se revela envelopando meu gozo. O que dava brilho ao desejo era apenas o que envelopava meu gozo.
O terceiro efeito epistêmico, segundo Lacan, desata o laço com o analista como representante do sujeito suposto saber. Revela-se, assim, que esse sujeito suposto saber, no qual eu me sustentava em minha busca de analisante, não passava de uma significação que dependia de meu desejo. E, com a deflação do desejo, com a virada de seu objeto em des-ser, meu laço com o sujeito suposto saber a um só tempo se distende e se rompe.

O sapo e a princesa

Alguns anos atrás, um comercial de cerveja encantador foi exibido na TV britânica. Ele começava com o conhecido encontro de conto de fadas: uma moça caminha à margem de um riacho, vê um sapo, pega-o gentilmente no colo, beija-o, e é claro que o sapo feio se transforma num belo rapaz. Mas a história não termina aí: o rapaz lança um olhar ávido para a moça, puxa-a para si, beija-a e ela se transforma numa garrafa de cerveja que o homem segura triunfantemente na mão. Para a mulher, o importante é que seu amor e afeição (indicados pelo beijo) transformam o sapo num belo rapaz, uma presença fálica plena; para o homem é reduzir a mulher a um objeto parcial, a causa de seu desejo. Por causa dessa assimetria, não há nenhuma relação sexual: temos uma mulher com um sapo ou um homem com uma garrafa de cerveja. O que nunca podemos obter é o belo casal natural de um homem e uma mulher: a contrapartida fantástica desse casal ideal teria sido a figura de um sapo abraçando uma garrafa de cerveja - uma imagem incongruente que, em vez de garantir a harmonia da relação sexual, faz sobressair sua ridícula disparidade.

Slavoj Žižek – “Como ler Lacan”, p. 71

Fantasia Fálica

Alain Miller, Seminário L'être et l'un

"Há, portanto, a ideia segundo a qual é possível destituir o sujeito de sua fantasia fálica e, para fazer uma imagem ainda mais simples disso, é possível fazê-lo dizer sim à feminilidade, renunciar essa recusa da feminilidade que afeta o ser falante, não apenas o homem. Aliás, aos olhos de Lacan, o melhor exemplo é o próprio psicanalista. É por essa razão que a posição analítica é a posição feminina, pelo menos é análoga à posição feminina. Isso significa dizer que não se pode ser analista estando instituído pela fantasia fálica. Lacan, então, por meio de diversos viezes, retoma a afinidade especial entre a posição do analista e a posição feminina.
(...)
Hoje quando lemos alguma coisa como das Streben nach Mannlichkeit, isso não fica tão aparente. O que parece ser o vento dominante é das Streben nach Weibilichkeit, a aspiração à feminilidade. Então, com efeito, isso prouz- há pessoas que não concordam- um certo número de fundamentalistas que querem trazer de volta essa aspiração à ordem androcênctrica, da qual as grandes religiões da humanidade dão um esplêndido exemplo. Isso os enerva particularmente. Claro, há as causas sociais, históricas, e tudo mais que vocês quiserem, alguns movimentos aos quais assistimos. Do ponto em que vejo o que anda acontecendo, penso que o fenômeno mais profundo é a aspiração contemporânea à feminilidade. E as resistências, a desordem, o delírio e a raiva na qual mergulham os partidários da ordem androcêntrica, as grandes fraturas às quais assistimos entre a ordem antiga e a ordem nova, isso se decifra, ao menos por uma parte, como a ordem viril recuando diante do protesto feminino."

O corpo é escrito com significantes



Um dos meus últimos analisandos reclamou de uma abundância de sintomas psicossomáticos que mudavam o tempo todo, embora tão devagar que cada sintoma tinha tempo suficiente para fazer com que ficasse muito preocupado e fosse ao médico imediatamente. Em dado momento, esse analisando ouviu um de seus amigos dizer que tivera, de repente, um caso agudo de apendicite, que o havia levado a uma operação de emergência. O analisando perguntou a sua esposa qual era o lado do corpo onde ficava o apêndice, e ela informou. Algum tempo depois, o analisando, muito estranhamente, começou a sentir dores nesse mesmo lugar de seu corpo. As dores persistiram; o analisando ficou cada vez mais convencido de que seu apêndice iria romper em breve e, por fim, decidiu ir ao médico. Quando o analisando mostrou ao médico o lugar da dor, este começou a rir e disse: "Mas o apêndice é do outro lado: seu apêndice está na direita, não na esquerda!". A dor sumiu de imediato e o analisando sentiu-se obrigado a explicar que sua esposa certamente havia se enganado ao dizer-lhe que o apêndice ficava do lado esquerdo. Saiu da sala de exames se sentindo um tanto bobo.
A moral da história é que o conhecimento, conhecimento conforme incorporado nas palavras "apêndice", "esquerda", e assim por diante, permitiu que um sintoma psicossomático se desenvolvesse num lado do corpo onde mesmo um médico mal informado descobriria o erro. O corpo é escrito com significantes. Se você acredita que o apêndice está do lado esquerdo, e por identificação com alguém ou como parte de uma vasta série de sintomas psicossomáticos você acaba tendo uma apendicite, vai doer, não no órgão biológico, mas onde você acredita que o órgão esteja localizado.

Bruce Fink - O sujeito lacaniano

Enamoramento

Encontro em minha vida milhares de corpos; desses milhares, posso desejar algumas centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro de que estou enamorado me designa a especialidade de meu desejo...
Foram necessários muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas pesquisas), para que eu encontrasse a Imagem que, entre mil, conviesse a meu desejo.
Este é um grande enigma do qual jamais descobrirei a chave: por que desejo Fulano? Por que o desejo duravelmente, langorosamente? Seria acaso todo ele que desejo (uma silhueta, uma forma, um jeito)?
Ou seria apenas um pedaço desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem vocação de fetiche para mim? Que porção, talvez incrivelmente tênue, que acidente? A forma de uma unha, um dente um pouco partido obliquamente, uma mecha, um modo de separar os dedos falando, fumando?
De todas essas dobras do corpo, tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: isto é meu desejo, enquanto é único: “É isso! É exatamente isso (que eu amo!).”
Entretanto, quanto mais experimento a especialidade de meu desejo, menos posso nomeá-la...

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso

Anorexia

A anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada. "Nada", isso é justamente algo que existe no plano simbólico. Esse ponto é indispensável para compreender a fenomenologia da anorexia mental. O que está em questão neste detalhe é que a criança come nada, o que é diferente de uma negação da atividade. Esta ausência saboreada como tal, ela a emprega diante daquilo que tem à sua frente, a saber, a mãe de quem depende. Graças a este nada, ela faz a mãe depender dela.

Jacques Lacan - Seminário 4

A Bela Alma

"A "bela alma" pretende descrever o estado deplorável do mundo como se dele estivesse excluída, como se o olhasse de uma distância objetiva, digamos, de uma distância de metalinguagem. Mas ela se esquece de incluir nisso sua própria posição subjetiva, o fato de que quer o mundo tal como ele é para poder continuar a ocupar sua cômoda posição de vítima explorada — todo o seu gozar narcísico se prende a esse papel, sua identidade de vitima explorada dá consistência a seu eu imaginário.
(...)
A consciência julgadora, dessa maneira, afigura-se ainda pior do que a consciência pecadora e atuante: o mal absoluto é o olhar inocente que percebe o mal por toda a parte, exatamente como em A Volta do Parafuso, de Henry James, onde o verdadeiro mal é o próprio olhar da professora que percebe por toda parte a presença de espíritos maléficos. O mal não está no ato, que sempre possui uma dimensão universal, ainda que esta seja desconhecida pelo sujeito agente, mas no olhar que reduz o ato a seu conteúdo particular. Hegel completa aqui a célebre frase de Napoleão, "Não se é herói para o próprio criado de quarto", acrescentando: "Não porque um não seja herói, mas porque o outro é um criado de quarto." "

Zizek, O Mais Sublime dos Histéricos: Hegel com Lacan, p.85-87

Lacan, o Real e o Zen-budismo


"Segundo um mestre taoísta chinês, O Livro do Caminho [Tao] e da Virtude, escrito entre 250 e 350 a.C., na China, é “um texto profundo e ao mesmo tempo simples porque apresenta, por meio da linguagem, aquilo que se experimenta na sua ausência”. Daí o profundo interesse de Lacan.

Mas o foco dos estudos lacanianos recai em particular sobre a passagem que fala da origem das coisas: “o Tao de que se pode falar não é o Tao. Para compreendê-lo, é necessário abandonar a linguagem e os nomes. O Tao encerra o princípio de todas as coisas, mas ele mesmo não tem forma e nem corpo: é silencioso, eterno e imutável. O Nada é a essência do Tao, a fonte original de onde brotam o Céu e a Terra. Do Céu e da Terra brotam as inúmeras coisas. A ausência de intenção é necessária para se contemplar as inúmeras coisas; a aspiração, para contemplar a Luz. Nada e Existência possuem nomes diferentes, mas ambos provêm do Tao. O maior dos mistérios é o Tao, a fonte da criação das inúmeras coisas.” De acordo com Roudinesco, a noção de vazio extraída deste livro “será utilizada por Lacan para sua nova definição do real no quadro de sua teoria dos nós.”

Haveria, portanto, um papel de destaque, ainda que apenas nos bastidores, para a noção de um vazio taoísta neste momento da teorização lacaniana. A passagem da formalização da tópica do Real, Simbólico e Imaginário para o modelo dos matemas e dos nós, neste sentido, revela a busca de Lacan por um modelo teórico capaz de dar conta da transmissão do inefável.

A necessidade de pensar como se articulam campos para além da linguagem, isto é, o que não se expressa nem como imagem e nem como símbolo, conduz a tópica lacaniana a uma mudança de ênfase radical: o lugar determinante antes ocupado pelo Simbólico agora cabe ao Real."


"O comportamento desconcertante do mestre zen tem por objetivo romper com padrões de pensamento condicionados, isto é, com formas equivocadas, caducas, de constituir a realidade. Desaloja.

Ao mesmo tempo, trata-se da expressão direta de sua verdadeira natureza. O mestre zen é um ser liberto; ele liberta-se das convenções sociais rompendo com os limites impostos pelo ego, e com isso se torna capaz de enxergar para além dos conceitos e definições. A morte do ego o põe em contato com a natureza vazia da realidade convencional.

Lacan fala da técnica zen como uma recusa de todo sistema. Esta palavra, sistema, adquire um papel fundamental adiante, no mesmo texto. Ele afirma:

“O absurdo fundamental do comportamento inter-humano só é compreensível em função desse sistema – como o denominou de forma feliz Melanie Klein, sem saber o que dizia, como de hábito – que se chama o eu humano, a saber, esta série de defesas, de negações, de barragens, de inibições, de fantasias fundamentais, que orientam e dirigem o sujeito.”

Aí está o ponto. Trata-se de definir, no âmbito da clínica psicanalítica, a pertinência e o alcance da superação desse sistema, o eu. Este é o ponto nuclear, até mesmo, é o ponto de mira do texto que estamos examinando, para onde converge toda sua argumentação.

Sabemos que o pontapé de Lacan neste seu seminário, além de atingir Melanie Klein, dirigia-se de modo especial a um sistema de pensamento, a chamada Ego Psychology. O mestre da psicanálise francesa considerava esta corrente psicanalítica americana, ligada à figura de Anna Freud, uma versão domesticada, uma espécie de deturpação puramente adaptativa da peste em seu potencial subversivo, enraizada nas pulsões desestabilizadoras do id."


 http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs34/34Costa.htm

Reciprocidade do amor

“O amor é sempre recíproco, mesmo quando não é correspondido” - Jacques Lacan

J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

Dom de amor

No dom de amor, alguma coisa é dada por nada, e que só pode ser nada. Em outras palavras, o que faz o dom é que um sujeito dá alguma coisa de uma maneira gratuita; na medida em que, por detrás do que ele dá, existe tudo o que lhe falta, é que o sujeito sacrifica para além daquilo que tem.
Suponhamos um sujeito provido de todos os bens possíveis, de todas as riquezas, um sujeito que tenha a plenitude possível de tudo o que se possa ter. Pois bem, um dom vindo dele não teria de modo algum o valor de um signo de amor. Os crentes imaginam poder amar Deus porque Deus é considerado detentor de uma plenitude total, uma totalidade de ser. Mas se este reconhecimento dirigido a um deus que seria tudo é apenas pensável é porque, no fundo de toda crença, existe ainda assim esse algo que permanece ali - este ser que se considera ser pensado como um todo, falta a ele, sem dúvida alguma, o principal no ser, isto é, a existência. No fundo de toda crença em deus como perfeita e totalmente munificente, existe a noção de uma coisa qualquer que lhe falta sempre, e que faz com que se possa ainda assim, sempre supor que ele não exista. Não há outra razão para se amar a Deus senão que talvez ele não exista.

Jacques Lacan - Seminário 4

As Invasões Bárbaras



 “O desdobramento implícito de "O declínio" para "As invasões" é o deslocamento da pulsão sexual para a pulsão de morte, o que se acha primorosamente ilustrado pela trilha sonora de ambos: do Haendel voluptuoso e sensual do primeiro ao minimalismo angustiante e sinistro de Philip Glass do segundo.
(...)
Na busca de dar ao pai o melhor possível para enfrentar a doença terminal, Sébastien revela o poder absoluto do dinheiro que tudo compra (...) O dinheiro surge no filme sem números, mas em maços; não é contado, mas pesado na balança. Ele revela a sua face feroz de gozo absoluto e mostra que não é apenas no Terceiro Mundo (mencionado no filme duas vezes), que, manipulando a corrupção, opera milagres e faz tudo acontecer.
Noutro nível, o da cultura, trata-se de um filme sobre o real do gozo sem limites: o dinheiro, a droga, a queda do simbólico, a falência do amor, o vazio ético e politico. Tudo se passa como se a mudança ocorrida nesses 17 anos evidenciasse primordialmente a falência dos ideais e das fantasias sociais e a emergência daquilo que se esconde por trás de todas elas: a voracidade de um gozo mortífero, do qual a droga é um dos símbolos mais fortes. Em "O declínio", a droga utilizada é a maconha, ao passo que em "As invasões" é a heroína. Cheirada, injetada e fumada, ela opera uma grande invasão no corpo do gozo bárbaro e sem limites, do gozo não refreado pelas construções da cultura.
(...)
Já na casa do pai de Sébastien, Nathalie se detém nas obras da biblioteca dele. Seu olhar se encanta com as palavras nas lombadas e capas dos livros, grandes obras de construção da cultura humana. Nathalie respira fundo. Num impulso, beija rapidamente a boca de Sébastien. Sua cura se anuncia, uma fantasia amorosa se instaura para ela a fim de refrear o gozo mortífero da droga. E a cultura humana, quando ela poderá ter a sua chance de cura? Como ela devera ser amada para que deseje retribuir esse amor? Quando conseguirá refrear minimamente as invasões barbaras? A ostentação de uma enorme potência de gozo através das Torres Gêmeas – que, como dois falos gigantescos, parecem gozar sem parar desprezando a alteridade –, ao suscitar o profundo ódio do Outro, demonstrou não ser a melhor saída."


(Marco A. Coutinho, Fundamentos da Psicanálise, vol.2, p 154-158)

O Real e a Fantasia



"Mais além da casa, mais além do corpo, isto é, mais além do sexual, surge o não sexual, o real, o não-senso radical: lugar de das Ding, a Coisa que não tem palavra nem imagem para designá-la. Essas telas parecem sugerir: mais além do sexual, o real; ou, mais além da realidade colocada pela fantasia - a realidade constituída por uma trama simbólico-imaginária -, o real. (...)
Hopper nos permite retomar nossa ideia de que a obra de arte é uma construção imaginária que, de dentro do mundo simbólico, indica o real fundante da estrutura psíquica (...) o real é indicado pelo olhar dos personagens que, de dentro do mundo simbólico, se dirige insistentemente a essa região que permanece fora do campo do visível, inacessível à visão do espectador.

(...) estes personagens estão como que congelados nesse encontro com o real e lhes falta um segundo tempo no qual poderiam se voltar ainda para o mundo simbólico, mas atravessados por esse real situado mais além da fantasia. Ali, eles poderiam retomar a via do desejo sem restringí-lo ao suporte da fantasia. Esses personagens, aos quais falta alegria, leveza (essa posição na qual o real mortífero exerce uma atração absoluta sobre o olhar é a posição do sujeito melancólico), ressaltou igualmente Jean Charmoille, parecem ter chegado ao limite entre o simbólico e o real, mas eles sofrem de uma injunção superegóica que lhes enuncia: "Vocês chegaram até aqui, então aqui permanecerão!" Como se uma verdadeira punição vinda do supereu arcaico lhes fizesse pagar caro por essa audácia de transpor os limites da janela constituída pela realidade fantasística e se situar em face do real, desvelando o logro da estrutura que nos constitui."

(Marco A. Coutinho, A clínica da fantasia, p.252)

Desejo na contemporaneidade

Bauman, Amor Líquido

"Em sua versão ortodoxa, o desejo precisa ser cultivado e preparado, o que envolve cuidados demorados, a árdua barganha com conseqüências inevitáveis, algumas escolhas difíceis e concessões dolorosas. Mas, pior que tudo, impõe que se retarde a satisfação, sem dúvida o sacrifício mais detestado em nosso mundo de velocidade e aceleração. Em sua reencarnação radical, aguçada e sobretudo compacta como impulso, o desejo perdeu a maior parte de tais atributos protelatórios, enquanto focalizava mais de perto o seu alvo. Tal como nos comerciais que anunciavam o surgimento dos cartões de crédito, agora não
precisamos esperar para satisfazer nossos desejos.

Guiada pelo impulso ("seus olhos se cruzam na sala lotada"), a parceria segue o padrão do shopping e não exige mais que as habilidades de um consumidor médio, moderadamente experiente. Tal como outros bens de consumo, ela deve ser consumida instantaneamente (não requer maiores treinamentos nem uma preparação prolongada) e usada uma só vez, "sem preconceito" É, antes de mais nada, eminentemente descartável.
Consideradas defeituosas ou não "plenamente satisfatórias", as mercadorias podem ser trocadas por outras, as quais se espera que agradem mais, mesmo que não haja um serviço de atendimento ao cliente e que a transação não inclua a garantia de devolução do dinheiro. Mas, ainda que cumpram o que delas se espera, não se imagina que permaneçam em uso por muito tempo. Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de
funcionamento satisfatórias são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que "novas e aperfeiçoadas versões" aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?"

Falta de fundamentos

É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida. Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível – se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato... Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte – uma gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum desejo frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda do Desejo.

Emil Cioran.

Possessividade

O desejo de posse não é mais que uma outra forma do desejo de durar; é ele que constitui o delírio impotente do amor. Nenhum ser, nem mesmo o mais amado, e que nos ama com maior paixão, jamais fica em nosso poder. Na terra cruel em que os amantes às vezes morrem separados e nascem sempre divididos, a posse total de um ser, a comunhão absoluta por toda uma vida é uma exigência impossível. O desejo de posse é a tal ponto insaciável que ele pode sobreviver ao próprio amor. Amar, então, é esterilizar a pessoa amada. O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira revolta. Aqueles que não exigiram, pelo menos uma vez, a virgindade absoluta dos seres e do mundo, que não tremeram de nostalgia e de impotência diante de sua impossibilidade, aqueles que, então, perpetuamente remetidos a sua nostalgia pelo absoluto, não se destruíram ao tentar amar pela metade, não podem compreender a realidade da revolta e seu furor de destruição. Mas os seres escapam sempre e nós lhes escapamos também; eles não têm contornos bem-delineados. A vida, deste ponto de vista, é sem estilo. Ela não é senão um movimento em busca de sua forma sem nunca encontrá-la. O homem, assim dilacerado, persegue em vão essa forma que lhe daria os limites entre os quais ele seria soberano. Que uma única coisa viva tenha sua forma neste mundo, e ele estará reconciliado!

Albert Camus - O homem revoltado

Decepção

"Só há conversação agradável com os mimados que deixaram de sê-lo, com os ex-ingênuos... Acalmados enfim, deram, a gosto ou a contra-gosto, o passo decisivo em direção ao Conhecimento, esta versão impessoal da decepção."

Emil Cioran

The Matrix, o las dos Caras de la Perversión

por Zizek,

"La alienación DENTRO del gran Otro va seguida de la separación DEL gran Otro. La separación tiene lugar cuando el sujeto se da cuenta de que el gran otro es en sí mismo carente de sustancia, puramente virtual, excluido, privado de la Cosa – y la fantasía intenta llenar estas carencias del Otro y no las del sujeto. Es decir, intenta (re)constituir la sustancia del gran Otro. Por ello, la fantasía y la paranoia están indisolublemente unidos, la paranoia es, a un nivel elemental, la creencia en un «Otro del Otro», un Otro más que, escondido tras el Otro del tejido social explícito, programa los efectos (que a nosotros nos parecen) imprevisibles de la vida social y, de este modo, garantiza su consistencia."

Obsessivo



"O que é um obsessivo? É em suma um ator que desempenha seu papel e executa um certo
número de atos como se ele estivesse morto. O jogo ao qual ele se dedica é uma maneira de colocar-se ao abrigo da morte. É um jogo vivo que consiste em mostrar que ele é invulnerável. Para este fim, exercita um adestramento que condiciona todas as suas abordagens de outrem. Vamos vê-lo numa espécie de exibição onde se trata, para ele, de mostrar até aonde pode ir no exercício, que tem todas as características de um jogo, inclusive suas características ilusórias - isto é, até aonde pode ir outrem, o pequeno outro, que não passa de seu alter ego, o duplo dele mesmo. O jogo se desenvolve diante de um Outro que assiste ao espetáculo. Ele próprio nada mais é que um espectador, a própria possibilidade do jogo e o prazer que dele retira residem aí. Em contrapartida, ele não sabe que lugar ocupa, eis o que há de inconsciente nele. O que ele faz, faz com fins de álibi. Isso ele é capaz de entrever. Ele se dá conta, realmente, de que o jogo não é jogado ali onde ele está, e é por isso que quase nada do que acontece tem para ele verdadeira importância, mas isso não quer dizer que ele saiba de onde vê tudo isso." (Lacan, Seminário 4)

Angústia

Em suma, a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo em que ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí, a angústia.

Jacques Lacan

A histérica e a feminilidade,


por Serge André, em O que quer uma mulher?

A histérica jamais se sente revestida o bastante por sua imagem corporal, como se essa vestimenta imaginária ameaçasse sempre se entreabrir para a realidade repulsiva de um corpo que ela não pode reconhecer como tal. É quando a carne aponta sob o vestido, sob a maquilagem ou sob a máscara da sedução que a histérica se vê suja, feia, repugnante, reduzida ao estado de vianda. (...)
Se se produz uma falta ao nível da constituição da imagem corporal, uma falta correspondente deve ser situada ao nível da identificação simbólica fornecida pela instância paterna. (...) É da mensagem do Outro que depende, de fato, a constituição dessa imagem corporal, na medida em que ele pode validá-la ou anulá-la quando a criança busca sua aprovação. (...) É ao nível do Outro, em consequência, que devemos procurar o ponto de origem de onde decorre a série desordenada da problemática histérica. Qual é, pois, esta falha do Outro que formaria o ponto de partida da histeria? Basta deixar falar a histérica para aprendê-lo: Anna O., Lucy R., Elisabeth von R., Dora, todas nos dizem à sua maneira que encontraram em seu pai uma falha fundamental - doença, impotência, falta de caráter... (...) Toda a clínica da histeria gira em torno deste ponto de umbigo: o falo que a histérica encontrou em seu pai - no Pai em geral - é sempre insuficiente: o pai da histérica é estruturalmente um impotente. Mas impotente para quê? A demanda da histérica se revela aqui em sua dimensão de questionamento da feminilidade. Se o pai é estruturalmente impotente, é de fato porque ele não lhe pode dar o apoio com que ela conta para assentar sua identidade feminina. A insígnia paterna só indica o falo, só sugere identificação fálica. O que se põe em causa a partir de então, na demanda da histérica ao pai é uma falta absolutamente radical: mais que um fracasso do recalque, é uma verdadeira impossibilidade de recalcar que é designada. Pois o representante que deveria ser recalcado falta, pura e simplesmente: não há no Outro, como Lacan vai desenvolver magistralmente, significante do sexo feminino como tal.
Essa falta de apoio para uma identificação especificamente feminina - quer dizer, outra que não a fálica - faz com que a imagem corporal, numa mulher, não possa revestir e erotizar completamente o real do corpo - a não ser que ela se faça "toda fálica", que ela "se faça homem", o que não significa que assuma uma aparência masculina, mas que aborde a sexualidade à maneira do homem, na ostentação fálica. Mas qual é este real onde fica abandonada a parte propriamente feminina da feminilidade? Nenhuma resposta positiva pode resolver esta questão, pois que se trataria de nomear um não representável. No entanto, a histérica justamente tem a convicção de possuir a resposta: o que ela diz, com efeito, é que, privada de uma identificação propriamente feminina, só se pode ver reduzida ao estatuto abjeto de objeto de consumo entre à perversão do macho. Sente-se, em suma, aprisionada pela fantasia masculina, identificando a esta todo o comportamento sexual. (...) Doente pela falta do Outro, a histérica vai realmente se devotar a repará-la, chegando por vezes ao sacrifício de sua vida pessoal, especialmente de toda a vida amorosa. Sustentáculo do pai, madona dos inválidos, a histérica se consagra a uma esperança: menos a de receber, enfim, o falo do pai - como Freud acreditou e tematizou na "inveja do pênis" - do que a de obter, precisamente, outra coisa que não o falo: um signo que a funde numa feminilidade enfim reconhecida.

Narcisismo das pequenas diferenças



Esses novos grupos evangélicos são fascistas sobretudo na estratégia com que usam para alcançar o poder: a incitação de ódio a um grupo minoritário como modo de criar uma coesão interna entre os seus.
Qual outra motivação possuem os eleitores do Feliciano?
A julgar pelo que lemos nos comentários dos jornais: nenhuma.
Nenhuma proposta positiva, apenas um discurso apocalíptico e a crítica a toda "imundície" que está aí
São unidos pelo ódio comum que têm por homossexuais, petistas, liberais, drogados, comunistas, alienígenas e umbandistas. É uma cegueira fascista, não há outro nome.


(Tiago Macedo)

O gozo do Outro, a obsessividade e a histeria.



Serge André,
em O que quer uma mulher?

De fato, a descoberta do gozo sexual pela criança sempre ocorreu no nível mais primário numa experiência passiva - no sentido em que é sempre do Outro que o sujeito recebe a sexualidade. O gozo sexual é sempre antecipado, na medida em que ele se apossa da criança na sua relação primeira com o Outro: a criança é inicialmente gozada, mais do que goza, pois ela é quem, em primeiro lugar, obtém do Outro que lhe preste cuidados, um gozo que não é abusivo qualificar de sexual. (...) O importante aqui não é que exista ou não um acontecimento histórico no qual o sujeito tenha sido a vítima de manobras mais ou menos perversas, mas que todo sujeito começa por ser, enquanto bebê, entregue às carícias, aos desejos, às emoções da pessoa que dele se ocupa. (...) Essa experiência primária de passividade sexual, onde o sujeito é gozado pelo Outro, é o que Lacan nos ensinou a designar como a posição na qual o sujeito se reduz a ser objeto causa do desejo do Outro - em sua fantasia, mas também na experiência real de dependência com relação ao primeiro Outro que é a mãe. A partir de então, a experiência em que se funda o trauma de toda neurose - quer seja histérica, obsessiva ou fóbica - seria aquela em que o sujeito se vê assumir a posição de objeto a oferecido ao Outro, posição em que ele desaparece enquanto tal, só subsistindo como dejeto ou instrumento do gozo do Outro. (...) A obsessividade se distingue da histeria no sentido em que nela a versão ativa do trauma está recalcada: o que o obsessivo não suporta, a representação que lhe parece "irreconciliável", é que por sua vez ele trata o Outro como o objeto de seu gozo - o que acaba por matá-lo enquanto Outro. Na histérica, ao contrário, o esquema do recalque permanece paralelo ao sentido do trauma: o insuportável é a posição passiva, a posição de objeto entregue ao gozo do Outro.

Teorias conspiratórias (e histéricas).

Contardo Calligaris,

"Showalter lembra que, para negar a existência e o surgimento de desejos sexuais em seus corpos e almas, as histéricas começam por atribuir esses desejos aos outros ou, como se diz, por projetá-los nos outros. Logo, elas fogem dos ditos outros (que se tornaram zumbis portadores dos desejos delas) ou os acusam de seduções e estupros.
Moral da história, a histérica pode dizer: 1) eu não desejo nada, sou e me mantenho pura, pois o sexo não vem de mim, mas dos outros, que querem me sujar e 2) eu sei quem o outro "realmente" é, sei quais desejos vergonhosos ele esconde atrás de sua aparência bem-comportada. Em suma, 3) posso negar que tenho desejos, não preciso me responsabilizar nem me envergonhar por eles e, além disso, pretendo saber desvendar o lado obscuro de qualquer um.
Desvantagem: assim fazendo, eu me afasto irremediavelmente de meu próprio desejo. "

O impossível e o feminino


por Serge André, em "O que quer uma mulher?"

O saber psicanalítico não funciona, assim, em posição de verdade, a não ser na medida em que opera como saber furado, afetado por uma falha central - o que determina o estatuto da verdade enquanto semidizer. A psicanálise não permite saber tudo, pois o inconsciente não diz tudo. Lacan nos convida a compreender que essa falha não é da ordem de uma imperfeição que os progressos da pesquisa permitiriam preencher, mas sim que ela constitui a chave para a própria estrutura do saber. Convém, pois, dar forma afirmativa a nossa proposição: a psicanálise permite saber o "não todo", porque o inconsciente diz "não todo".
As linhas que se seguem têm por ambição mostrar como, de Freud a Lacan, a psicanálise chegou a designar na feminilidade a figura maior, e sem dúvida original, desse "não todo" e, na teoria da castração, a resposta que o inconsciente elabora em face do impossível de dizer que o sexo feminino encarna. Resposta que, por operativa que seja, não deixa de permanecer uma ficção. A castração é a construção pela qual o ser humano procura dizer a falta, mas, por isso mesmo, ela ilustra que não se pode dizer a falta enquanto tal. Dizer a falta já consiste, de uma forma ou de outra, em preenchê-la. Como poderia ser de outro modo, a partir do fato de que somos, os seres falantes, dependentes do significante? A partir de que, como formula Lacan, "o inconsciente é estruturado como uma linguagem"? Não se pode tratar, para o psicanalista, de aderir à fórmula de Wittgenstein segundo a qual "aquilo de que não se pode falar, é preciso calá-lo". A primeira constatação efetuada pelo psicanalista é a de que o humano não para de querer falar daquilo que não pode dizer (a mulher, a morte, o pai etc.). A partir de então, nossa via de pesquisa se define por uma máxima impossível: aquilo de que não se pode falar, é preciso dizê-lo!
O que significa "ser uma mulher"? Eis aí a Questão por excelência, para a qual evidência alguma nos oferece seu apoio, como quando se trata de saber o que é um homem. Quanto ao que pode querer, como afirma a sabedoria ancestral, jamais se está seguro. De onde a incontornável oscilação entre o culto da mulher como mistério - enigma - e o ódio à mulher como mistificação - mentira. Mas essas duas posições só servem para alimentar o desconhecimento do que constitui a verdadeira questão da feminilidade, pois postulam, todas duas, que a mulher é como um esconderijo que dissimularia alguma coisa.

Escapar ao querer

Jorge Forbes

"Quais são as possibilidades de escapar ao querer? É uma pergunta constante: como suportar a transferência? Como suportar que me queiram? Existem possibilidades histéricas e possibilidades obsessivas.

Uma possibilidade obsessiva de escapar ao querer seria não vir aqui hoje, ficar doente: Se me querem, então eu não vou. É a posição por excelência de Groucho Marx: Não entro em clube que me aceita como sócio, posição fóbica do obsessivo. Se o Outro me quer, eu desapareço. Outra forma do obsessivo lidar com o querer do Outro é destruindo o Outro e a si próprio, o que dá na mesma posição contrafóbica do obsessivo. O que precisa ser destruído é a expectativa em relação ao querer de alguém.

A posição histérica é a impossibilidade perante o querer do Outro: Disseram-me que eu disse boas coisas na quarta-feira passada, mas não foram tão boas assim; ou se fazer feia, por exemplo, Não sou tão bonita, Tenho celulite; ou a famosa brincadeira da adolescente, Eu uso aparelho, Usei bota quando era pequena, numa tentativa de dizer Não espere nada de mim, Não sou a mulher que você imagina. Formam um par bastante simples: o obsessivo. fóbico e contrafóbico, e a histérica, sempre insatisfeita.

Satisfazer o Outro é também uma das formas de proteger-se do querer desse Outro, corno uma mãe provedora que, ante o choro do filho, por exemplo, tenta provê-lo com água, comida, cobertor, balanço, num sufocamento incontrolável que acaba por tornar o filho asmático. Cena insuportável para a criança e para quem a presencia e que só uma mãe histérica é capaz de fazer."

Gozo Perdido

Uma observação do cotidiano, que me foi comunicada há muitos anos atrás, me parece ser a mais excelente exemplificação do que significa esta perda de gozo de que fala Lacan. Um menino de seis anos de idade, ao observar seu irmãozinho de leite mamando no peito de sua mãe, diz a ela: “Mamãe, eu também quero mamar!”. A mãe lhe responde: “Mas você já mamou!”. E ele exclama: “Mas eu não sabia!”. É dessa disjunção radical entre saber e gozo que fala Lacan. O menino, ao observar o irmão, quer voltar ao gozo do seio materno perdido, mas sabendo disso! Acontece que esse retorno não é possível: aonde há linguagem, não há gozo, e aonde há gozo, não há linguagem. O sujeito pode, portanto, afirmar que ele vai gozar no futuro, ou, então, que ele gozou no passado, mas jamais que ele o faz no presente. No aparelho psíquico, no mundo da linguagem, o gozo é sempre aspiração ou lembrança.

Por Marco Antonio Coutinho Jorge, Fundamentos da Psicanálise 2

O que pode uma mulher?


Por Maria Rita Kehl

Até pelo menos a segunda metade do século XIX, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de que? De visibilidade, diria Hanna Arendt. De visibilidade pública.
O termo é impreciso, pois nunca faltou visibilidade ao corpo feminino. Nem sob os véus islâmicos. Nem sob o jugo torturante de anquinhas e espartilhos. Do que as mulheres estiveram privadas até o século XX foi de presença pública manifesta não em imagem mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social. Ouvi do filósofo Bento Prado, em 1988, uma brilhante interpretação para a provocação lacaniana que diz “não existe A mulher”. Bento sugeriu que a inexistência de um significante que represente, no inconsciente, o conjunto das mulheres, deve-se ao fato de as mulheres, durante séculos, não terem inscrito sua experiência no campo da cultura. Foram objetos do discurso dos homens, não sujeitos de um discurso próprio.
No último século, o avanço das mulheres sobre todos os espaços da vida pública abalou a sustentação imaginária da diferença, dita “natural”, entre os sexos. Isto produziu nos homens o efeito de uma perda. Ou de uma feminização. A masculinidade, construção discursiva tão cultural como a feminilidade, vem sendo profundamente abalada. A pergunta freudiana, “o que quer uma mulher?” foi substituída, em nossos dias, por: o que é um homem? O que um homem precisa fazer para provar que é realmente um homem?
Se na vida pública os campos já se embaralharam de maneira irreversível, na vida privada a resposta parece banal: um homem “se garante” ao satisfazer sua mulher. Isto torna o poder sexual das mulheres quase intolerável, com efeitos terríveis de aumento da violência doméstica. Se a satisfação da mulher é a prova dos nove da masculinidade do homem, pode-se dizer que esta é hoje uma fortaleza sitiada. Ou uma “identidade” (aspas necessárias) acuada. Os acuados, como se sabe, costumam ficar violentos – mas a brutalidade não pode ser o último avatar da masculinidade.
Desde a popularização dos métodos anticoncepcionais, nada mais obriga uma mulher a permanecer casada, nem fiel, ao homem que não a satisfaz – supondo, como é provável que ela pense, que o problema seja apenas dele. Supondo que, no sexo, alguém possa satisfazer o outro por completo. Outro aforismo provocativo de Lacan, “não existe a relação sexual”, refere-se à impossibilidade de complementariedade perfeita entre os sexos. Até mesmo o casamento, que na modernidade inspirou-se na idéia de que homem e mulher poderiam formar dois-em-um, já não é o que prometia ser.
Resta a histeria, esta forma de sofrimento neurótico que muitos psicanalistas (homens) consideram como o paradigma da feminilidade. A histérica acredita n’O Homem como detentor do falo – o que a torna irresistível para os que ainda esperam manter os territórios masculino e feminino rigorosamente diferenciados. Só que a demanda histérica é impossível de satisfazer, o que acaba por desmoralizar o poder masculino. A histeria seria uma espécie de “feminismo espontâneo”, na expressão de Emilce-Dio-Bleichmar: uma recusa do lugar estereotipado de castradas aliada à ignorância sobre o caráter simbólico do falo e da castração.
A alternativa seria a invenção de uma nova arte erótica, mais de acordo com as possibilidades de troca que já estão abertas, embora mal aproveitadas, a partir das novas configurações do masculino e do feminino. A relativa feminização dos homens e a recém conquistada “masculinidade” nas mulheres podem contribuir para romper os automatismos sexuais que sempre empobreceram a experiência erótica de uns e de outras. Se a delicadeza não precisa estar toda do lado das mulheres, os homens já não precisam se garantir pela força. Nem pela brutalidade.
Mas é preciso coragem e um pouco de imaginação para ultrapassar a miragem fálica que estereotipa a diferença sexual. As mulheres, que já nasceram “sem nada a perder”, poderiam ensaiar a mestria nas artes eróticas que a imaginação literária há muito lhes havia reservado.

Texto completo em: http://www.mariaritakehl.psc.br/conteudo.php?id=166

Sobre o suposto fim da psicanálise

Ricardo Goldenberg

"O modo como falha em ser é tudo que tem para justificar uma existência, de qualquer ponto de vista, insensata. Talvez a melhor definição para a famigerada assunção da castração seja esta: abrir mão do defeito como brasão, suportar-se injustificável.
Acaso quando falamos de cura por acréscimo estamos desprezando o sofrimento humano? [...] Já temos ao alcance da mão o que é preciso tomar para dormir. Quem sabe dentro em breve saberemos agir diretamente sobre os centros bioquímicos da dor. E talvez se encontre a molécula da esquizofrenia. O nirvana se aproxima a grandes passadas. Supor que isso tudo será possível a curto prazo me parece muito mais interessante que dizer: não, jamais! Entretanto, uma vez que se encontrem os centros da dor e se saiba operar diretamente sobre eles, a vontade de justificação não desaparecerá. Antes pelo contrário, para o neurótico justificar-se por não sofrer é ainda mais difícil. Ao invés do que se supõe, nada disso anuncia o desaparecimento da psicanálise, dado que a verdadeira questão é se se pode curar ou não a justificação.
"Curar a justificação", uma bom comentário da injunção que Lacan não se importaria de ver qualificada como terrorista, e que colocamos em exergo: "De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis". Refugiar-se no determinismo inconsciente pode ser o último álibi para não ter que responder pela esquisitice e encontrar uma razão de ser. Nenhum determinismo fará dele um inocente, porém. Eis o terrorismo psicanalítico: engajar o sujeito no seu determinismo inconsciente. A neurose é uma escolha ética. Um paciente deve abandonar seu analista convicto disto."

Sigmund Freud, em Dostoievski e o Parricídio (1928).


Apesar de tudo, a identificação com o pai finalmente constrói um lugar permanente para si mesma no ego. É recebida dentro deste, mas lá se estabelece como um agente separado, em contraste com o restante do conteúdo do ego. Damos-lhe então o nome de superego e atribuímos-lhe, como herdeiro da influência parental, as funções mais importantes. Se o pai foi duro, violento e cruel, o superego assume dele esses atributos e, nas relações entre o ego e ele, a passividade que se imaginava ter sido reprimida é restabelecida. O superego se tornou sádico e o ego se torna masoquista, isto é, no fundo, passivo, de uma maneira feminina. Uma grande necessidade de punição se desenvolve no ego, que em parte se oferece como vítima ao destino e em parte encontra satisfação nos maus tratos que lhe são dados pelo superego (isto é, no sentimento de culpa), pois toda punição é, em última análise, uma castração, e, como tal, realização da antiga atitude passiva para com o pai. Mesmo o Destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai.

Neoliberalismo

IV

El neoliberalismo se propone como la racionalidad actual del capitalismo. Podemos afirmar que su racionalidad cumple con lo analizado por Heidegger con respecto a las “estructuras de emplazamiento” del ser propias de la técnica, que provocan en el ser humano una presentación de su existencia en forma de cálculo de sí, o con lo planteado por Lacan en el Discurso Capitalista, donde el sujeto ya sólo está condicionado por la “plusvalía” de goce. El fin último del neoliberalismo es la producción de un sujeto nuevo, un sujeto íntegramente homogeneizado a una lógica empresarial, competitiva, comunicacional, excedida todo el tiempo por su performance. Sin la distancia simbólica que permita la elaboración política de su lugar en los dispositivos que amaestran su cuerpo y su subjetividad.

V

¿Pero se puede producir enteramente al sujeto? ¿Tienen los dispositivos el poder y la fuerza material para secuestrar al sujeto y volverlo un “neosujeto” emprendedor de sí? He aquí uno de los grandes debates contemporáneos: ¿el sujeto es meramente una producción histórica efectuada por los dispositivos del poder y el saber, como piensan los foucaultianos? O, como han pensado Freud, Heidegger y Lacan, hay ciertos elementos en la propia constitución estructural del sujeto, que ningún orden político-histórico puede integrar al menos en forma total y definitiva. La posible lucha contra el neoliberalismo depende de esta cuestión: ¿qué hay en el advenimiento del sujeto en su condición mortal, sexuada y mortal que no pueda ser atrapado por los dispositivos de producción de subjetividades específico del neoliberalismo?" (Jorge Alemán)

Imperativo ao gozo

""De um lado, há hoje um problema com o fracasso das ordens simbólicas - do "Grande Outro", como diz Lacan. Isso conduz a um regime de interiorização das regras, e então, segundo Freud, a uma hipertrofia do superego. Ora, como Lacan o havia visto bem, o superego funciona como imperativo de gozo e também como interdito. A conseqüência paradoxal e trágica é uma corrida desenfreada ao gozo que acaba, evidentemente, na impossibilidade de gozar, pois o superego exige cada vez mais. Meus amigos psicanalistas me contam que hoje em dia o sentido de culpabilidade de seus pacientes não é mais fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de gozar, "de aproveitar". Agora, as pessoas não se sentem mais culpadas, quando têm prazeres ilícitos, como antes, mas quando não são capazes de aproveitá-los, quando não chegam a gozar. Mas, de outro lado, não se deve concluir, com certos semi-lacanianos como Pierre Legendre, que seja preciso restabelecer a Lei e a Ordem simbólica como espaço de transgressão. Lacan era grande inimigo do pensamento de Bataille, e isso não somente por razões puramente pessoais: o problema, a seus olhos, é que o desejo se encontra justamente, em Bataille, totalmente edificado sobre a transgressão.

A psicanálise tem aqui um papel essencial a desempenhar. Todos os outros discursos adquirem a forma de injunção para gozar, para buscar a felicidade. Mesmo o Dalai-Lama aderiu! A psicanálise é um discurso que não impede de gozar, mas que permite justamente não gozar. Você pode gozar, mas não sob a forma de uma regra, de uma interiorização "superegoica". Por isso, o pensamento freudiano é mais atual do que nunca. (...) seu problema jamais esteve na repressão ou no interdito: ele estava antes no paradoxo de uma permissão que bloqueia o gozo. Não é na atualidade que podemos desembaraçar-nos desta imagem simplista de um Freud que combate a opressão sexual. Todos os freudo-marxistas inteligentes o compreenderam. Por isso, Adorno sempre criticou Reich e sua idéia de uma explosão orgástica. " Zizek: http://zizek.weebly.com/texto-011.html

O supereu na perversão


Por Christian Dunker, em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/dossie-perversao/

A psicanálise chama de supereu essa lei interna ou essa voz que interdita certos tipos de satisfação, obrigando a outros. O supereu é a matriz ordinária de nossas perversões particulares e, ao mesmo tempo, a língua na qual expressamos e somos expressos pela lei social. Segundo essa tese, nossa consciência crítica, tida por muitos como a maior realização da razão humana, é ao mesmo tempo um olhar no qual nos aprisionamos, a voz do exagero e engrandecimento (das exigências, dos ideais e das expectativas normativas) e o núcleo de nossa satisfação e de nossa culpa em transgredir.
Por exemplo, vibrar em êxtase vendo um formigueiro pegar fogo não é um ato ilegal, mas sugere um tipo de gozo associado com a perversão. Qualquer criança explora esse tipo de satisfação, até que seus pais a convidem à seguinte “inversão de perspectiva”: “Imagine se você fosse uma formiga? Iria gostar de ver a casa pegar fogo?”. Esse tipo de inversão faz com que abandonemos uma gramática da satisfação – nesse caso o sadomasoquismo – em prol de outra. Cada um de nós possui uma história composta de gramáticas como estas: exibicionismo e voyeurismo, heterossexualidade e homossexualidade, feminilidade e masculinidade. Há gramáticas pulsionais mais simples, tais como ingerir e expelir, dar e receber, bater e apanhar, e há gramáticas mais complexas e mais abrangentes tais como ser e ter ou aceitar ou recusar.
Contudo, a tese psicanalítica é a de que a sexualidade infantil possui a característica de ser perversa, por explorar, exagerar e transgredir os diferentes modos de satisfação, e de ser polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. A perversão no adulto diferencia-se disso por seu caráter de fixidez (uniforme) e pela função subjetiva de desautorização da lei. Assim, a perversão não é só uma questão de infração procedimental da lei, mas refere-se ao tipo de intenção (ou de desejo), ao modo como nos colocamos, e situamos o outro, diante do que fazemos.
É nesse ponto que a definição popular de perversão argumentará que ela ocorre justamente por falta de sentimentos morais como a culpa, a vergonha e o nojo. Daí a ausência de arrependimento, de reparação e de consideração pelo outro que historicamente fez dos perversos os ícones da maldade. Eles não apenas praticam o mal, mas, principalmente, gostam de fazer mal aos outros, especialmente quando se comprazem em causar angústia, terror e tortura. Ora, o que acontece aqui não é a ausência de supereu, que poderia ser curada com a administração massiva da lei, mas a construção de uma espécie de supereu ampliado, como se algumas de suas funções fossem experienciadas, de modo deslocado, fora do sujeito, ou seja, no seu infeliz e circunstancial parceiro.

Nada de contrato sexual


Por Colette Soler, em O que Lacan dizia das mulheres

Evoquei o liberalismo dos costumes. Ele traz consigo, inevitavelmente, a questão dos limites. Ora, não temos outro limite a opor aos eventuais excessos da pulsão senão o dos direitos humanos, com sua exigência de igualdade e respeito. No que tange à sexualidade, eu poderia formular da seguinte maneira sua máxima antisadeana: ninguém tem o direito de dispor do corpo do outro sem um acordo mútuo. O paradoxo não nos há de escapar, pois, sejam quais forem os pactos amorosos, não há relação contratual possível com o Outro do gozo! Na nossa cultura, vamos aos tribunais denunciar como abuso qualquer iniciativa sexual que dispense o consentimento mútuo explícito! Daí os novos processos por assédio sexual, ou por looking, ou melhor, o estupro durante o encontro! Doravante, portanto, o respeito devido a todo sujeito estende-se ao espaço mais íntimo, e os direitos humanos esforçam-se por submeter a perversão generalizada à ideologia contratual, que hoje é não menos generalizada. E decerto é bom que seja assim, pois seria exorbitante recriminar a barreira fragilíssima dos direitos do homem.
Está claro, porém, aos olhos da experiência analítica, que, com essa louvável intenção de justiça, esquece-se com certa pressa que os consentimentos ou as recusas do eu desmentem, na maioria das vezes, não só os do inconsciente, mas os das respostas do gozo, e que essa divisão se manifesta em seu auge, precisamente, no espaço da relação com o sexo. Como ignorar que as escolhas amorosas, assim como as respostas do corpo, geralmente são uma surpresa para as aspirações do eu, e que, em virtude disso, cabe temer que uma legislação que pretende sujeitar o parceiro às normas desse eu conceda, muito simplesmente, poderes desproporcionais à insinceridade da intriga histérica? Os direitos do homem esforçam-se por se estender, finalmente, aos direitos da mulher, e só podemos aplaudir, porém jamais incluirão os direitos do Outro absoluto! Uma mulher, ela própria, na medida em que é sujeito - assujeitada, portanto, aos acordos de convivência, como qualquer outro sujeito -, seria incapaz de negociar com o Outro que ela também é para si mesma.

A posição histérica e a posição feminina


Por Colette Soler, em O que Lacan dizia das mulheres

Na relação com o parceiro, o sujeito histérico conduz a uma estratégia de subtração. “Esquiva”, diz Lacan, ali onde Freud já trouxera à luz o duplo movimento de sedução e recusa, a mão que levanta a saia e a outra que a abaixa. A Bela Açougueira o mostra de forma charmosa e inofensiva: não se recusa ao gozo do marido e não sabemos exatamente que gozo extrai disso, mas sabemos que a única coisa que lhe interessa, de fato, é aquilo que não é satisfeito no marido, e, se ela se identifica com a amiga, é para tentar, pelo menos imaginariamente, deixar insatisfeita a satisfação do marido. Mas não há nisso nenhuma maldade: apenas o voto de se fazer ser o que falta ao Outro.
Não se deve concluir que o sujeito histérico seja um sujeito que se recusa a qualquer gozo. Ele é um sujeito que consome a falta, e isso é realmente um gozo, mas não é o gozo vivo. Dito de outra maneira, gozar da falta e gozar da carne são duas coisas muito diferentes. Essa vontade de deixar o gozo insatisfeito é o que define, de maneira precisa, a posição histérica.
A posição-mulher é outra. Lacan a define de maneira oposta. Lacan responde à famosa pergunta de Freud: “Que quer a mulher”. A resposta, em resumo, poderia ser: ela quer gozar. Do sujeito histérico não se poderia dizer que ele quer gozar, nem tampouco o contrário, aliás. Então, que quer ele? Pelo que foi dito antes, depreende-se uma formulação. A histérica, ao deixar insatisfeito o gozo do Outro, quer um mais-ser. Assim, conviria dizer: a mulher quer gozar, a histérica quer ser. E até exige ser, ser alguma coisa para o Outro: não um objeto de gozo, mas o objeto precioso que sustenta o desejo e o amor.
Para a histérica, não se trata apenas de fazer o Outro desejar sexualmente, mas de fazê-lo dizer a causa. Daí a insatisfação que tropeça no impossível de dizer e se alimenta de todos os saberes produzidos. “Dize-me o que visa teu desejo, em mim ou no outro!”. Essa questão, que certamente alimenta o discurso amoroso, também tem uma função de supereu.

Sobre o fim de análise


Por Jacques-Alain Miller em Lacan Elucidado

Talvez o tratamento se conclua somente quando o sujeito sai da demanda e não espera mais nada da análise, não pede mais nada ao analista. Quando falamos da conclusão do tratamento, trata-se de algo muito misterioso: da desaparição profunda, radical, autêntica e inconsciente da demanda. Trata-se da desaparição do próprio lugar da demanda, da possibilidade de esperar algo da demanda feita a um Outro. Trata-se do fenômeno misterioso da desaparição do Outro como aquele a quem dirigir uma demanda.
O pedir, a demanda, é fundamental e, com a desaparição do Outro a quem pedir, se desvanece a esperança de poder encontrar alguém que dê o que falta a quem pede. Há uma falta que ninguém pode completar, um defeito sem remédio e, neste sentido, o desvanecimento da demanda é a mesma coisa que consentir e assumir a castração, que, de certo modo, significa não restar a quem dirigir a demanda.
Não se trata simplesmente de desistir de ambições loucas, de adquirir modéstia, de renunciar. Peguntaram-me se é mais fácil ou mais difícil quando o Outro não existe. Poderia responder que é mais fácil, pois quando não se pode pedir ao Outro, que não mais existe; quando não se pode pedir nada a ninguém, o remédio é apoiar-se em si mesmo. Mas, por outro lado, é muito mais difícil viver no desvanecimento do Outro, pois implica em viver sem identificações, em viver sem o suporte das identificações através das quais o sujeito, sem o saber, se inscrevia no lugar do Outro.
Há algo de cínico no fim de análise. Um certo tipo de solidão cínica. Na história do pensamento, são os cínicos, é a ascese cínica que encarna a posição do sujeito se conduzindo como se o outro não existisse e, assim, se permitindo de tudo, sem pudor, porque não está esmagado, limitado pelo olhar do Outro. Digo cinismo porque com ele o sujeito vive no coração de seu ser, como se o Outro não fosse senão semblante.
O analisado, o sujeito no final de sua análise, conhece um estado de entusiasmo à medida que desaparece o Outro ao qual ele dava o poder de esmagá-lo. Mas pela mesma razão o analisando conhece também um afeto depressivo quando descobre a inexistência do Outro e de todas as paixões que giravam ao seu redor. É por essa razão que Lacan situa os afetos possíveis do final de análise entre mania e depressão, de maneira antinômica e cíclica. Os dois afetos produzem-se com o desvanecimento do Outro da demanda.