sábado, 25 de janeiro de 2014

A segunda clínica de Lacan: emprestando consequências

Proponho pensar que, se na primeira clínica o analista empresta sentido ao que diz o analisando, na segunda, o que ele faz é emprestar conseqüência. Ao emprestar sentido, cada fala do analisando remete a outra, e mais outra, e assim por diante. Se, por um lado, isto tem um efeito revelador bastante conhecido, por outro, pode dar impressão à pessoa de que o que ela diz não tem muita importância ou conseqüência – como quero destacar –, pois ela espera que o que importa é o que ainda não foi dito. Assim, podemos encontrar exemplos de falas bastante duras, de julgamentos pesados, que contam com esse efeito derrisório, como se o que valesse mesmo fosse o que ainda estivesse por vir, algo ainda não falado. 
Para ilustrar, transcrevo algumas intervenções atribuídas a Lacan:

O paciente declara:
– Uh lá lá, como eu sou burro.
Lacan: Não é porque o senhor o diz que não seja verdade. 

Ou ainda:
O senhor deve se dar conta que se o senhor pensa que os outros pensam que o senhor pensa mal, é talvez simplesmente porque o senhor pensa mal. 

Outro caso:
O senhor talvez imagine que não sou tão inteligente quanto o senhor (fala o paciente). 
Lacan: Quem lhe diz o contrário? 

Sempre na mesma linha:
O paciente chega, deita e passados alguns instantes:
– Não tenho nada a dizer...
Lacan: Ok, isso acontece! Até amanhã, caro.

Em todas essas passagens da clínica destacamos o mesmo elemento: a conseqüência do que se diz.


Jorge Forbes

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